Depois do Magnífico Material Inútil de 2008, Os Pontos Negros lançaram há pouco mais de um mês o seu novíssimo Pequeno Almoço Continental.

O Espalha-Factos esteve na Universal à conversa com Os Pontos Negros Filipe Sousa e Silas Ferreira, para conhecer melhor a banda e, claro, o novo trabalho.

Espalha-Factos: Vocês começaram em 2005. Desde então, como tem sido o percurso da banda?

Filipe Sousa: A banda começou com o Jónatas e com o David, em Maio de 2005. Eu entrei uma semana depois para um ensaio. Ficámos assim durante quase um ano, tocámos umas duas ou três vezes, se tanto. Depois convidámos o Silas, em Abril de 2006, e a formação manteve-se assim. Começámos a dar concertos, a ensaiar de uma forma mais regular, a fazer músicas. Depois de gravar o EP, que nos deu mais visibilidade, chegámos até aqui à Universal e agora estamos no nosso 2º disco aqui.

Espalha-Factos: O que é que mudou, desde então?

Silas Ferreira: Acho que mudou muita coisa, mas nem nos apercebemos muito disso. Acho que musicalmente o nosso processo tem sido sempre mais ou menos o mesmo, mas a nível de como encaramos a banda e o trabalho que fazemos, acho que mudou muita coisa. Passámos a ter mais responsabilidades e a noção dessas responsabilidades. A atenção que o público te dá, que a imprensa te dá, que o próprio meio musical te dá, isso muda um bocadinho a tua perspectiva das coisas. Mas o que tentámos sempre manter foi o prazer que temos em fazer isto, especialmente ao vivo, tentar sempre dar o litro.

Espalha-Factos: António Variações é uma influência para vocês…

Silas: Sim, é. Eu acho que é mais ou menos consensual dentro da banda e mesmo dentro da FlorCaveira, que o António Variações é um paradigma da escrita musical. Há o antes e o depois do Variações. Nem é só em termos de escrita, é em termos do que ele era, porque acho que ele representa, talvez num expoente máximo, a música rock. Ele era um tipo absolutamente anónimo e não era uma pessoa muito letrada. Até ao António Variações, geralmente para seres levado a sério na música tinhas de ser um Sérgio Godinho. A partir do António Variações, tens é que ser uma pessoa que sente realmente aquilo que está a dizer, tens de ser uma pessoa autêntica.

Espalha-Factos: Digamos que é então uma homenagem que vocês lhe fazem neste novo álbum…

Silas: Neste novo álbum é um bocado mais óbvio, mas praticamente desde as primeiras edições da FlorCaveira que essa homenagem está sempre presente. Não é a única, há outras referências (Heróis do Mar, GNR, Peste e Sida, Alfredo Marceneiro), mas o António Variações merece um carinho especial.

Espalha-Factos: No vosso caso, vocês rompem um pouco com aquilo a que se está habituado no panorama rock português actualmente…

Silas: Não sei muito bem em que sentido. O que conseguimos com este disco, e isso não é para gabar o nosso trabalho, porque muitas das coisas são fruto do acaso, é que haja algum som no nosso trabalho que acho que ninguém está a fazer neste momento, isso sim. Não acho que seja alguma coisa absolutamente extraordinária, absolutamente original. Se calhar fazemos isso menos intencionalmente do que parece, mas o que aí está é o que quisemos fazer, somos nós.

Espalha-Factos: Falando agora um pouco sobre o novo álbum, do Magnífico Material Inútil para este Pequeno-Almoço Continental, quais são as principais diferenças?

Filipe: Há diferenças bastante incisivas entre um e outro. O Magnífico Material Inútil, para já, tinha 13 músicas, este tem 10, apenas. O outro foi construído e gravado com o objectivo do disco funcionar como um todo. A maneira de gravar, a maneira de interpretar as músicas foi praticamente a mesma ao longo de todo o disco. Neste, e também por influência do Jorge Cruz, quisemos retirar as potencialidades de cada canção e é por isso que o disco é mais heterogéneo. As músicas são mais diferentes entre si e, por isso mesmo, quisemos um disco mais curto. Pensámos que poderia resultar melhor.

Espalha-Factos: Sentiram aquela dificuldade de superar o outro disco?

Silas: Aconteceu tudo muito rápido e não tivemos muito tempo para nos preocuparmos com isso. Já havia algumas canções feitas, mas o grosso do disco, mesmo em termos de preparação e de ensaios, começou em Janeiro. No fim de Fevereiro já estávamos a gravar e no início de Março estava gravado, mais um mês para misturas e pronto, estava o processo encerrado. Não sentimos muito essa pressão, embora às vezes pensássemos um bocado nisso, mas acho que nem foi propriamente um assunto discutido. De vez em quando, claro, que tínhamos aquela noção “Ok, isto é um desafio grande, porque o disco foi muito bem recebido, as pessoas gostaram e temos de conseguir fazer um disco que seja pelo menos tão bom como o primeiro”. O resultado foi um disco diferente que vai necessariamente apelar a outro tipo de público também. Quisemos apelar a pessoas que ainda não nos ouviram e mostrar-lhes coisas diferentes. Há algumas coisas neste disco que até se parecem com coisas que fizemos antes, no EP e até antes, e que há muita gente que não conhece e que, se calhar, não vai ouvir porque não tem acesso a isso. Há pessoas que nunca vão chegar aos Pontos Negros se não ouvirem na rádio.

Espalha-Factos: De onde surgiu o nome do novo disco Pequeno-Almoço Continental?

Filipe: Por acaso o nome foi das coisas mais difíceis de encontrar, acho que foi a última coisa que decidimos. O nome Pequeno-Almoço Continental remete obviamente para uma refeição, e para nós o disco é um bocado isso. Apesar de ser pequeno, é consistente e o pequeno almoço continental é isso. E o próprio nome remete um bocado para um espaço de férias, de praia e como nós estávamos em Espinho ao pé da praia, longe de casa, achámos que fazia sentido. Até porque o pequeno-almoço era das poucas refeições que tomávamos no aparthotel e que gostávamos muito.

Espalha-Factos: Rei Bã é o primeiro single do novo disco. Escolheram-no por alguma razão especial?

Silas: Foi uma decisão difícil.

Filipe: Foi, porque havia várias músicas potenciais para primeiro single.

Espalha-Factos: Por exemplo?

Silas: Subzero, Amor é só Febre, Rei Bã e Caminhos de Ferro. Eram estas quatro.

Filipe: Nós gostávamos de todas. Ainda não tínhamos ouvido a opinião aqui do pessoal da Universal. Eles ouviram esta música e disseram: “Esta música é que é”, e acho que resultou bem. Até porque é uma música que sai um bocado fora daquilo que tínhamos feito até agora e as pessoas podiam experimentar outro som d’Os Pontos Negros. Achámos que fazia algum sentido pôr essa música já na rádio.

Espalha-Factos: Como foi gravar o vídeo deste tema?

Silas: O vídeo foi um processo muito mais rápido do que o disco e foi muito engraçado. Demos só duas ou três indicações ao realizador, o resto foi tudo trabalho dele e não podia ter resultado melhor. O vídeo não só é tudo o que nós queríamos como é muito mais. Foi um dia inteiro a ouvir a música e a dançar em Lisboa sem ter propriamente noção de qual ia ser o resultado final. Quando vimos pela primeira vez ficámos imediatamente convencidos.

Espalha-Factos: O álbum saiu dia 17 de Maio e apresentaram-no na manhã desse mesmo dia no topo do Bairro Alto Hotel. Como é que foi a experiência, já que era um concerto privado mas estava a ser transmitido na Internet?

Filipe: Foi engraçado, acho que foi a primeira experiência que tivemos em tocar de manhã e foi giro. A parte mais chata foram as entrevistas antes e depois do concerto.

Silas: Eu já não me lembrava de estar nervoso para um concerto há muito tempo. (risos) Não estava muito nervoso, mas estava um bocadinho, o que não é nada normal. Era a primeira vez em muito tempo que estávamos a tocar e era a primeira vez que estávamos a tocar as músicas do novo disco ao vivo. E apesar de não termos lá o público, isso podia ser uma armadilha. Não tínhamos o nosso público, tínhamos lá a imprensa, mas havia muita gente a ver-nos pela Internet. Se calhar, havia tanta gente a ver-nos pela Internet como num concerto normal num auditório e havia um bocado essa pressão, mas foi uma óptima experiência e espero que as pessoas tenham gostado.

Espalha-Factos: Entretanto começaram os concertos mesmo como vocês gostam…

Silas: Tivemos quatro, nós gostamos de mais, gostamos de tocar muito. (Risos)

Filipe: Para aquilo que gostamos a quantidade de concertos é sempre pouca. Gravar o disco é como se fosse um ganhar fôlego para os próximos concertos.

Silas: Foi a primeira vez que gravamos alguma coisa que nunca tínhamos tocado. Tínhamos tocado duas ou três músicas num ou outro concerto. Fomos para estúdio com coisas que nunca tinham sido experimentadas com o público e foi a primeira vez que apresentámos um disco com material 100% novo para toda a gente. Desse ponto de vista é uma experiência nova. Agora queremos ver como é que isso resulta junto das pessoas. Estes concertos de apresentação correram muito bem mas o disco ainda não chegou a toda a gente e acho que no fim do Verão os concertos vão ter outro tipo de reacção do público.

Espalha-Factos: Destes quatro concertos (Évora, Lisboa, Porto e Vila de Rei), há algum que vos tenha marcado mais?

Filipe: Évora, até porque foi o primeiro concerto da mini-tour, e foi um concerto que nos remeteu para o tempo em que não estávamos na Universal e em que íamos a espaços mais pequenos em que o pessoal estava todo em cima de nós. Foi uma injecção de adrenalina brutal. Esse e o do São Jorge, acho que foram os que eu gostei mais.

Espalha-Factos: E qual é o balanço que têm feito dos concertos?

Filipe: É bom.

Silas: Este disco obriga-nos a uma dinâmica muito diferente, porque fazíamos sempre concertos em que acontecia tudo muito rápido do princípio ao fim. Este disco obriga-nos a ter dinâmicas muito diferentes, obriga-nos a dar uma experiência diferente às pessoas e isso é interessante.

Espalha-Factos: Como é que foi fazer a cover da música Esta Balada Que Eu Te Dou de Armando Gama?

Filipe: O Henrique Amaro convidou-nos para gravar quatro músicas para o programa Três Pistas e para um CD que ele lançou com o mesmo nome. Gravámos três originais e a versão foi a Esta Balada que eu te Dou porque nos lembrámos.

Silas: Começámos a tocar a música mais ou menos por piada. Eu e o Filipe fomos tocar a um casamento com parte de um conjunto do qual nós fazemos parte, da FlorCaveira, os Ninivitas, e uma das músicas que tocámos foi Esta Balada que te Dou. Depois, de vez em quando, nos ensaios tocávamos aquilo por brincadeira e achámos que aquilo funcionava bem no contexto d’Os Pontos Negros e gravámos.

Espalha-Factos: Recentemente, disseram em tom de brincadeira no Facebook, que, se chegassem a número 1 no top A3-30 da Antena 3, gravavam uma cover do Marco Paulo.

Silas e Filipe: Gravávamos. (Risos)

Filipe: Isso por acaso foi ideia do Jónatas, mas sim, gravamos com todo o prazer. E oxalá fiquemos em primeiro. Queremos mesmo fazer uma versão do Marco Paulo. (risos)

Espalha-Factos: Têm alguma preferência de entre as músicas dele?

Filipe: É complicado escolher. Há tantas boas…

Silas: O Sou tão feliz é uma boa. Acho que era muito bonito irmos buscar uma das canções que ele interpretou há muito tempo, mas as pessoas não iam chegar lá. Há uma preferência, que é o Sempre que Brilha o Sol, mas como é muito óbvia…

Filipe: Há uma que ninguém se lembrou de sugerir que é o Maravilhoso Coração, Maravilhoso. Essa é boa.

Silas: Sim, é muito batida mas valia a pena porque ainda está na ordem do dia.

Filipe: Mesmo a Eu Tenho Dois Amores, até era engraçado. Não sei… há muitas.

Espalha-Factos: Os Pontos Negros começaram na editora baptista FlorCaveira e continuam ligados a ela de uma ou de outra maneira. Para vocês, qual é a relação música-religião?

Filipe: A relação entre música e religião é total. A religião para nós sempre esteve associada à música, até porque somos Baptistas e a comunidade Baptista provém dos Estados Unidos e tinha muita influência e raízes na música gospel e soul. Por isso, a música está sempre associada à religião, no nosso caso e no caso da religião católica também com a música sacra, por exemplo. Desde que nascemos estamos habituados a ir à Igreja e a ouvir coros, a ouvir cânticos, a ouvir o órgão e o piano a tocar e sempre tivemos o contacto com a música. Isso para nós é uma coisa que estará sempre ligada. A música é talvez uma parte fundamental da religião.

Silas: Sim, é isso. Começámos a ouvir música e, mais importante, começámos todos a tocar música no contexto da Igreja, portanto compreendemos muito bem artistas como o Ben Harper, que começou numa igreja evangélica, e compreendemos muito bem que isso influencie a carreira deles. O facto de nós usarmos o órgão n’ Os Pontos Negros tem tudo a ver com isso. Não é só das bandas de punk e de garagem que nós ouvíamos. É um instrumento que está muito associado à liturgia da igreja e, no fundo, [o que se faz é] desventrá-lo no rock.

Espalha-Factos: Para finalizar, onde é que gostavam de chegar?

Filipe: O nosso objectivo é fazermos isto enquanto tivermos força, enquanto gostarmos. E esperamos que possamos tirar algum rendimento disto, começar a perspectivar fazer vida disso, porque a certa altura esse começa a tornar-se um objectivo cada vez mais permanente. Mas, não sei… Queremos chegar até onde Deus quiser.

Inês Moreira Santos