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Dia Mundial da Dança. Visitámos a Escola de Dança do Conservatório Nacional

Na Rua João Pereira Rosa, no Bairro Alto, há um edifício do século XIX que acolhe uma escola em autêntico movimento. A Escola de Dança do Conservatório Nacional é uma das maiores formadoras de bailarinos em Portugal. As referências para os atuais alunos já são muitas. De lá já saíram bailarinos como Romeu Runa, Daniel Cardoso, Telmo Moreira, Filipa de Castro ou Marcelino Sambé. O Espalha-Factos assistiu a uma aula de alunos finalistas e conversou com quatro deles para saber como afinal vai ser o seu futuro. Que será de certeza a dançar!

São 15h30 de uma quinta-feira e, numa sala com vista para o Tejo, a aula de Contemporâneo da professora Catarina Moreira já começou. Divididos em grupos, os alunos fazem o aquecimento com acompanhamento musical ao vivo. Depois com exercícios mais aéreos ou no chão, a aula vai avançado sempre com Catarina Moreira a marcar os tempos e a corrigir os pequenos enganos. Na aula encontram-se India Nunes, Lua Carreira, Miguel Duarte e Francisco Patrício. Os quatro finalistas têm experiências e destinos diferentes na dança. Se a dança os juntou no Conservatório e os faz estar nesta aula, também lhe indicará caminhos diversos.

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Quem são os alunos?

Dos quatro, India é a bailarina que tem mais anos de Conservatório. Aquilo que começou como um hobbie, no seu quinto ano passou para algo que lhe começou a ocupar muito mais tempo. Atualmente no 12º ano, tem aulas de formação académica durante a manhã e o ensino artístico durante a tarde. Ao todo, os alunos passam quase dez horas na escola. Quem o diz é Constança Couto, adjunta da direção e professora de Contemporâneo : “Eles têm de facto uma carga horária muito exaustiva. A partir do secundário, eles têm aulas desde oito e meia ou dez até às oito e meia da noite.” Esta é já uma preparação do que aí vem, pois se quiserem ser bailarinos vão ter uma horário exigente e disciplinado como o da escola.

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Lua Carreira não nega este facto : “O dia começa muito cedo e acaba tarde. Não se trata só das aulas que nós temos, porque isso não é suficiente. Nós temos de fazer trabalho extra. Portanto se nós temos aulas às dez horas, eu nunca estou cá às dez horas, estou cá às nove horas, porque tenho trabalho extra para fazer.” Ao contrário da sua colega, Lua entrou para o Conservatório apenas no 10ºano. Apesar de já praticar dança na Dancespot, decidiu que queria que esta arte fosse a sua vida. Durante um ano fez preparação para a audição do Conservatório e acabou por entrar. A adaptação não foi fácil e Lua é a primeira a admitir: “Ainda hoje eu sou finalista, mas eu sei que existem muitas coisas que me faltam porque eu não estive cá desde o início.” A bailarina acha que isso não a irá influenciar de forma negativa, mas irá marcar o seu percurso.

Vindo de Coimbra, Francisco Patrício também iniciou o seu caminho no Conservatório no 10ºano. Dançava desde os três anos e aos catorze decidiu que queria ser bailarino. Fez a audição exigida, entrou e além de um novo desafio na aprendizagem da técnica russa e da técnica Graham, teve de enfrentar a adaptação a uma nova cidade e métodos de trabalho. O sonho comandou a motivação de Francisco e fez com que tudo corresse bem.

Há também quem tenha começado por outra modalidade e tenha encontrado a dança pela primeira vez no Conservatório. Miguel Duarte fazia ginástica no Lisboa Ginásio Clube e por incentivo da sua mãe fez a audição para o Conservatório no sétimo ano. Entrou e foi descobrindo um novo mundo. A escola tem sido uma rampa de lançamento.  “Desde fazer espetáculos aqui, num dos maiores palcos que temos em Lisboa, até ir lá fora e dançar em muitos países”, afirma o bailarino relativamente às oportunidades da escola. Um dos países foi a Suíça, onde Miguel foi vencedor na categoria de dança contemporânea no Prix de Lausanne.

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Na escola

A aula avança e tudo se parece tornar mais desafiante. Fixos no espelho ou nos colegas, a dança é um jogo de olhares. Seja no cinema, na televisão ou em relatos de alguns bailarinos a competição é um dos fatores associados aos bailarinos. E com um estudante de dança, isso também acontece?

“Há sempre um bocadinho de competição, mas a competição pode ser saudável e pode ter um lado negativo. Mas na escola, pela minha experiência, tem sido uma coisa saudável, porque o facto de um ser melhor que o outro puxa-nos e faz-nos querer melhorar e evoluir e perceber como ele consegue e se ele consegue, eu também vou conseguir. Portanto é continuar a trabalhar”, quem o diz é India Nunes.

Também Miguel Duarte não encara a competição de forma negativa. “É comigo próprio antes de com os outros”, revela o bailarino. Desta forma conquistou Lausanne em fevereiro. Depois de um mês de preparação, partiu para a Suíça onde, para além da competição, teve a oportunidade de trabalhar com coreógrafos, professores e ensaiadores de toda a parte do mundo, de todas as escolas e de lidar com estilos diferentes. No último dia, chegou a vitória. Quanto à pressão do público , já não o amedronta, vai ter conviver com isso durante o seu futuro: “Eu já estou um bocadinho habituado. Claro que é sempre difícil e assusta sempre um bocadinho ter 10 pessoas com uma luzinha de candeeiro a anotar e a avaliar, todo o público, a dimensão que o concurso e a transmissão que aquilo tinha na internet.”

A escola tem estado representada em vários concursos internacionais como Lausanne (Suíça) ou TamzOlymp (Berlim). Depois de avaliados, os alunos são escolhidos conforme as características do concurso, se é mais clássico ou mais contemporâneo, por exemplo.

As linguagens evoluem, as técnicas acrescentam-se e a escola tenta atualizar -se através de coreógrafos convidados. Cada aluno é um individulidade. “Eu só os oriento, eu abro portas”, afirma a adjunta da direção e professora Constança Couto.

Para os interessados em fazer parte deste conjunto de alunos, as audições realizam-se dias 23, 24 e 25 de junho. Para este Dia Mundial da Dança, a escola vai abrir as suas aulas a alunos do 1ºciclo. No final do ano letivo, há o tradicional espetáculo, onde já se realizaram peças como o Quebra-Nozes ou La Bayadere.

Qual vai ser o futuro?

Desde o início do ano que os bailarinos têm tido a preocupação do que vai ser a sua vida no próximo ano. O próprio Conservatório organiza no início do ano uma reunião dos alunos para saber o caminho que querem seguir. “Uns dizem: ‘Ah, eu gostava ainda de fazer mais um ano de escola ou eu gostaria de seguir a universidade’. Outros dizem: ‘Eu gostaria de ir para companhias, mas companhias clássicas. Outros dizem ainda: eu gostaria de companhia contemporânea. Então nós tentamos perceber quais são as vontades de cada um deles e direcioná- los, porque nós temos contactos com várias escolas”, esclarece-nos Constança Couto.

Os quatro alunos mostram-se ansiosos para o que aí vem. Integrada na disciplina de Formação em Contexto de Trabalho, India está neste momento a trabalhar com a Companhia Nacional de Bailado em Giselle e já tem um convite para ficar cá em Portugal. Pelo contrário, os restantes três bailarinos têm a possibilidade de ir para fora do país. Miguel Duarte e Francisco Patrício também estão no corpo de baile de Giselle e vão partir para fora no próximo ano. Miguel irá recusar a bolsa que venceu em Lausanne, que seria apenas um estágio, e irá para a NDT na Holanda, onde será recebido como bailarino de contemporâneo .

Francisco Patrício também esteve presente em Lausanne e apesar de não ter saído vencedor conquistou a atenção da diretora de uma companhia em Basileia e irá para lá estudar.

Lua Carreira ainda está a fazer audições, mas há uma hipótese de ficar em Itália: “Ficar em Portugal era uma hipótese que eu punha se tivesse oportunidade, porque acho que é cá que é preciso ficar.”

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Os jovens bailarinos têm noção que dançar em Portugal não é fácil. Há poucas oportunidades de trabalho e a profissão ainda é pouco reconhecida. Portugal não tem uma longa tradição no ensino da dança e na sua profissionalização, os alunos do Conservatório ainda sofrem com questões sobre o seu futuro. “Vais ser bailarino e então? Vais trabalhar no quê depois? Bailarino é mais que suficiente e se calhar até tem mais valor que muitas outras profissões. É uma arte e portanto a dança é o que estamos a fazer aqui e estamos a tornar-nos artistas”, conta-nos Miguel.

Mesmo assim, os estudantes do Conservatório acham que há boa dança em Portugal. Os bailarinos do Conservatório aconselham-nos a Companhia Nacional de Bailado, o Quorum Ballet, a programação do CCB ou projetos mais independentes. Lua também aponta algumas falhas: “Existem grandes coreógrafos, que se calhar, não estão tão ativos porque também existem falta de apoios , de público e de divulgação da dança.”

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Constança Couto também constata a falta de emprego na dança em Portugal. No entanto, também sente que os alunos sentem a necessidade de ir para fora, nem que seja para ter novas experiências e se tornarem mais ecléticos.

O que é a dança para ti?

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India Nunes:  “A dança é uma parte muito importante da minha vida. Se não fosse a dança a minha vida seria completamente diferente. A dança é algo que nos dá muito prazer fazer e nós basicamente organizamos a nossa vida toda em função da dança.  A dança ocupa uma posição central.”

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Lua Carreira: “A dança faz parte de mim. A pessoa que eu sou hoje foi formada porque eu danço. Passo mais tempo na escola e a dançar que em casa.  A dança não é só uma profissão que eu quero seguir, não é só um meio profissional em que eu quero ter sucesso, mas é um complemento da minha experiência enquanto pessoa.”

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Miguel Duarte:  “A dança é talvez a condição mais forte da minha e da nossa vida. É mais do que um hobbie, mais do que uma coisa que nós gostamos de fazer, passa a ser uma profissão, passa a ser o nosso trabalho. Mesmo que muita gente ainda não tenha consciência disso, isto é um trabalho.”

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Francisco Patrício: “A dança é um elemento que faz parte de mim desde muito pequeno. Ajudou-me a ultrapassar muitas dificuldades e ajudou-me a aperfeiçoar quem eu sou e possivelmente também me vai ajudar quem eu vou ser no futuro. Nunca quero deixar de dançar nem nunca quero deixar de sentir que a dança já não faz parte de mim. Quero sentir sempre que está viva dentro de mim e que me vai ajudar em todos os momentos da minha vida.”

 Fotografias de Inês Delgado

  1. Cara Teresa Serafim, não encare este meu comentário como uma critica a si, mas a todos os que nestes dias escrevem sobre dança. O caminho que percorrem é sempre igual. Vão sempre aos mesmos sítios. Quando se trata de falar de estudo da dança escolhem sempre a EDCN (que é uma excelente escola e a única pública em Portugal) e a CNB.
    No entanto, há outras escolas a fazerem formação de bailarinos e outras companhias de dança.
    Lembro-me por exemplo, da Academia de Dança Contemporânea de Setúbal, do Orfeão de Leiria e tantas outras escolas em regime de ensino articulado. Assim como me lembro de outras companhias, como a Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo, do Quorun Ballet, Da Companhia de Dança de Almada e podia continuar por aí fora.
    Penso, que seria boa ideia mostrar o que se faz em Portugal na área da dança sem ser, sempre, através destas duas entidades.

    1. Cara Cristina, obrigada pelo comentário!
      Concordo consigo e acho que se deve divulgar companhias e academias menos conhecidas e tentamos, quando possível, ir por esse caminho. Mas se explorar um pouco o site, pode concluir que já temos feito peças sobre o Quorum Ballet, a Companhia de Dança de Almada, entre outras. Por isso, discordo consigo nessa parte.
      Depois, não conseguimos fazer artigos em todas as partes do país devido ao deslocamento.
      No caso do Conservatório, tentámos mostrar um pouco do percurso de jovens bailarinos que estão a acabar o curso e alguns deles nem sequer vão ficar a dançar em Portugal, sendo que uma das razões é a falta de oportunidades. Se também se aperceber, os quatro jovens questionados no artigo evidenciam que ainda hoje a sua futura profissão na dança ainda não é muito reconhecida no nosso país. Por isso, achámos de bom tom explorar essa parte. Se isso é explorado por muitos meios? Penso que não!
      Quanto à questão da CNB, temos desenvolvido alguns artigos sobre a companhia porque esta ocupa um espaço importante no panorama artístico nacional. Tentamos dar sempre algo de novo, mas cabe aos leitores perceberem se isso acontece.
      Obrigada pelas sugestões, que vamos tomar em conta. Aguarde e pode ser que em tempos próximos tenha a possibilidade de ler no site sobre outras companhias, academias e vertentes da dança. 😉
      Dança é isto, uma autêntica partilha de ideias!
      Abraço

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