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Entrevista EF. Maria Saturnino: “sou uma pessoa que está dividida entre duas margens”

O Espalha-Factos teve a oportunidade de estar presente no lançamento da obra Não toquem na senhora marquesa!, de Maria Saturnino, no passado sábado, dia 23 de agosto, na Biblioteca Municipal Álvaro de Campos, em Tavira. É com orgulho que divulgamos o trabalho de uma autora portuguesa, que publica de forma independente, e que cedeu um pouco do seu tempo para nos contar como é que se lançou na aventura de contar histórias.

A abertura da sessão ficou a cargo da diretora da Biblioteca, Dr.ª Paula Ferreira, encontrando-se na mesa o Dr.º Jorge Augusto Correia, a autora Maria Saturnino, a Professora Ana Cristina Matias e o Professor José Ferreira Coelho. Houve ainda espaço para a leitura de dois poemas, por parte de Maria da Encarnação, uma amiga da autora, e de uma ex-aluna da Escola Secundária Dr. Jorge Correia. O Engenheiro Macário Correia esteve também presente – segundo a autora, desde o primeiro dia.

Não toquem na senhora marquesa! intercala contos com poesia e conduz o leitor a uma viagem por Moçambique, Goa (a antiga Índia Portuguesa), Lisboa, Cascais, Porto e Tavira, entre outros. No entanto, a sessão de lançamento debruçou-se para além da terceira obra de Maria Saturnino, tendo-se discutido também sobre os seus dois primeiros livros, a sua vida em Moçambique, a sua qualidade como escritora, o que a levou a contar histórias.

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O Dr.º Jorge Correia teceu largos elogios a Maria Saturnino, declarando que “a autora teve muita sorte em ter um espírito que se dá, que se entrega, de maneira que facilmente se torna sociável e, portanto, vai adquirindo essa qualidade, esse requinte de estar na vida”, acrescentando que “Lourenço Marques era uma terra de convívio permanente”, o que contribuiu naturalmente para o desenvolvimento daquilo a que se refere como “valor genético”. “Eu não a considero uma escritora vulgar, é quanto a mim uma diletante, porque o faz por amor, por simpatia especial, por paixão. (…) É uma coisa extraordinária a perfeição com que ela descreve uma árvore, parece que estou vendo a árvore”.

A Professora Ana Cristina Matias optou por instigar a uma reflexão sobre a existência de pessoas audazes, como Maria Saturnino, que continuam a preferir a possibilidade de toque e cheiro de um livro, numa era “em que a grande globalização é feita através do twitter”. Uma reflexão que passou pela discussão da utilidade da literatura no séc. XXI, tendo sido convocados alguns nomes da cena literária, como Umberto Eco ou Fernando Pessoa. Quanto ao Professor José Ferreira Coelho, teceu comentários acerca dos escritos de Maria Saturnino e da importância da presença do embondeiro na sua obra, um símbolo místico que os nativos acreditavam acolher as almas daqueles que pereciam, sendo por isso um recurso utilizado nas cerimónias de passagem.

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Depois da sessão de autógrafos, o Espalha-Factos teve o prazer de conversar um pouco com Maria Saturnino.

Espalha-Factos: Boa tarde. Gostaria primeiro de saber como nasceu a paixão pela escrita.

Maria Saturnino: Os meus filhos e os amigos dos meus filhos interrogavam-me muitas vezes sobre coisas de Moçambique, frequentemente com uma ideia errada, pré-concebida. Eu contava-lhes a minha experiência e eles começaram a dizer-me “Oh, Sani, escreva, porque é que não escreve? Para nós lermos e sabermos.” e, a partir daí, comecei a escrever. Mas pensei que era para depois fazermos um jantar e lermos, discutirmos, o que eu escrevia. Acontece que o Dr.º Jorge Correia leu os meus rabiscos e incentivou-me a publicar.

EF: Fale-me um pouco d’Entre Margens, o seu primeiro livro de poesia.

MS: Sempre gostei muito de poesia e gosto muito das palavras. As palavras, na minha boca, é como se fossem bombons. Gosto muito dos vários chocolates, da forma como são embrulhados. Tudo o que tem a ver com as palavras eu associo um pouco ao bombom. [Além de poemas em português,] faço poemas em espanhol, francês e inglês. Naturalmente que eu não domino bem essas línguas, mas como o poema normalmente é construído com frases pequenas, vou conseguindo. O que vale mais no poema é o sentimento que traduz. É sempre mais forte que a prosa. Portanto, foi o meu primeiro livro e coloquei aquele poema, Entre Margens [recitado por Maria da Encarnação], porque sou uma pessoa que está dividida entre duas margens.

EF: Tavira e Moçambique?

MS: Fui com quatro anos para Moçambique, voltei com 29. A viagem de 45 dias é descrita no conto Trovoada, que será talvez o meu quarto livro. Portanto, toda a minha parte intelectual e afectiva se desenvolveu em Lourenço Marques. Mas tinha raízes cá, principalmente a minha prima Estrelinha, que a pouco e pouco me foi ensinando a ser algarvia.

EF: De momento, reside em Lisboa. Não tem saudades de Moçambique?

MS: Não, não tenho saudades, porque Lourenço Marques acabou. Hoje é Maputo e Maputo não me diz nada. Não é por uma questão política, mas porque houve realmente uma transformação na cidade. Tudo aquilo que significou para mim já não significa. Mas por outro lado, gosto muito da Ria Formosa e aqui sinto-me em casa. Naturalmente que, quando penso nos anos em que lá vivi, nos amigos, nos sabores, nos cheiros, tenho de recordar com saudade.

EF: Quer partilhar uma memória que guarda com muito carinho?

MS: Quero! Há uma história, cuja primeira parte é verdadeira, eu vivi-a e recordo-a com muito carinho. Tinha sete anos e foi o meu primeiro dia de aulas. É sempre qualquer coisa de excepcional.

EF: Quanto ao seu segundo livro, Os deuses não moram aqui. É uma colectânea de contos?

MS: Sete contos. Os contos são todos muito diferentes. Os deuses não moram aqui é uma das histórias, sobre uma jovem que vive na Ilha da Madeira, naquela verdura, e que de repente tem um problema e vai para África, para a savana sem fim. Ela às vezes perguntava à tia, quando olhava para o monte do Funchal, quem é que morava lá e, a tia na brincadeira respondia «Os deuses, minha filha. Os deuses.» A jovem, na savana, andou quilómetros e quilómetros, e era só capim, e então ela diz Os deuses não moram aqui. Mas, afinal de contas, os deuses moravam ali, só que eram outros deuses e, a casa dos deuses é o embondeiro.

EF: Deixando agora os livros de lado, como descreve a experiência como assistente do Presidente da Junta do Comércio Externo, em Lourenço Marques?

MS: Foi uma experiência muito gratificante, mas também muito triste. Vi homens de quarenta, cinquenta anos, a chorar, porque o governo de Portugal não permitia determinadas coisas. Por exemplo, alguns tinham os armazéns cheios de castanha de caju, que é altamente inflamável, e bastava o aumento de dois ou três graus para aquilo arder imediatamente. Na metrópole, era tudo um bocado tacanho e as pessoas queriam trabalhar e desenvolver o país e não conseguiam.

EF: E no Departamento de Relações Públicas do Banco Fonsecas & Burnay, o actual BPI?

MS: Fiz coisas muito interessantes. O banco cresceu muito. Basta dizer que num ano abriram 100 balcões e criaram-se linhas de créditos para desenvolver a indústria, o comércio e o turismo. Havia reuniões com 800 pessoas. Gostei muito [da experiência] e das amigas que lá encontrei.

EF: Gostaria de terminar com uma mensagem para todas as pessoas que têm dentro de si muitas histórias, mas que ainda não foram capazes de as pôr em papel?

MS: Eu não sei as histórias que as pessoas têm. Muitas vezes eu peço para me contarem, mas não me contam. Se calhar não escrevem porque não têm apetência ou coragem, não sei. Mas recomendaria que contassem a história, mesmo que não fosse para publicar. Por exemplo, que idade tens?

EF: Dezanove.

MS: Imagina que é muito difícil para ti compreenderes como é que era o namoro no meu tempo, como eram os bailaricos, as restrições que nós tínhamos na roupa. Era impensável sairmos à rua com os calções que hoje se usam, era impensável na praia estarmos com um fio dental. Eu acho que é importante saberem como era, sobretudo para darem valor à liberdade que têm, que nós não tínhamos. Eu só votei depois do 25 de abril. Por isso, se tiverem histórias, contem, contem!

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