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Bom Dia: as crianças, os adultos e a televisão

É um dos 3 clássicos do Mestre Yasujiro Ozu a estrear, pela primeira vez, no grande ecrã em Portugal. Bom Dia é uma sátira social que se mantém extremamente atual, e que pode ser vista, ou revista, a partir de hoje no Espaço Nimas. Um filme que irá com certeza animar o verão dos cinéfilos lisboetas.

Yasujiro Ozu pegou num seu filme anterior (Nasci, mas…) e adapta a estrutura narrativa e cómica das personagens ao período em que Bom Dia é filmado, captando alguns momentos de mudança e controvérsia que marcaram fortemente a cultura japonesa de finais dos anos 50. A história desenvolve-se num mosaico de personagens vizinhas umas das outras numa pequena comunidade japonesa, e às situações, amizades e intrigas que são criadas entre todas elas. Mas todas giram à volta dos enganos e aborrecimentos criados por dois teimosos irmãos, que pedem a todo o custo aos pais que comprem uma televisão, para poderem acompanhar os campeonatos de Sumo. Como eles não o querem fazer, porque apontam muitos males a essa pequena caixinha, Minoru (Kôji Shitara) e Isamu (Masahiko Shimazu) decidem fazer uma greve de silêncio, para tentarem obter aquilo que tanto desejam.

Pode parecer surreal, para as pessoas da geração high-tech que (podemos dizê-lo da forma mais metafórica, mas realista, possível) nasceu com um ecrã táctil no lugar dos olhos, o confronto com um mundo onde a televisão é um bem raro e que apenas alguns podem ter acesso. Poderá ser incompreensível, para as pessoas que vieram ao mundo numa era em que a televisão já se tinha tornado uma parte essencial e vulgar de qualquer casa, e cuja influência já se tinha tornado parte do quotidiano de cada um, que uma história como Bom Dia possa ter usufruído de um impacto significativo – e que pode falar, e muito bem, da forma como a televisão se banalizou e acabou por afetar, de uma maneira mais ou menos condizente com o que os Velhos do Restelo do filme anunciam, as nossas vidas e as nossas relações.

Ou então podemos modificar o valor material da narrativa de Bom Dia, e de todas as discussões e problemas que daí surgem, para outras épocas e para as controvérsias familiares que causaram apetrechos como os videojogos, os computadores, os telemóveis e, se virmos as coisas de uma perspetiva ainda mais moderna, dos tablets e dos smartphones. Se trocarmos qualquer um destes elementos pela TV que os dois irmãos tanto ambicionam, em nada mudam as peripécias que eles vivem – mas a cada passo tecnológico que damos ao longo do tempo, poderemos ver como cada uma dessas tecnologias conseguiu alterar, no sentido positivo como também no negativo, alguns pequenos pormenores sociais presentes na geração anterior.

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Mas centremo-nos, então, no caso específico explorado por Ozu neste filme: Uns (poucos) possuem uma televisão no conforto de suas casas, e por isso se tornam ponto de encontro de vários transeuntes (infantis e juvenis) que estão desejosos de descobrir este novo mundo apresentado pelo ecrã (e que os Pais tentam proibir a todo o custo). Depois os outros (muitos) são os que não possuem o aparelho nos seus lares por uma ou duas razões: ou porque o televisor, como um bem de custo elevado para os parâmetros de vida da época e para os orçamentos familiares, não pode ser comprada, ou porque os membros de cada agregado familiar consideram essa nova coisa como um mal maior para a boa regulação da sociedade – às tantas ouvimos o Pai dos dois miúdos citar alguém que disse isto: “a televisão irá produzir 100 milhões de idiotas“.

A fita joga, assim, com uma oposição entre o medo dos mais velhos em relação à televisão e o fascínio dos mais novos por tudo aquilo que ela lhes pode dar a conhecer. E a partir disto, Bom Dia constrói uma pitoresca comédia urbana, satírica e crítica de um certo modo de vida em sociedade, apontado o bem e o mal da chegada dessa invenção que tantas vidas mudou e continua a mudar Hoje. E em cada geração, com a sua tecnologia-novidade que muitos desprezam e outros idolatram, sucedem-se uma série de mudanças que acabam por nos ajudar a compreender a forma como as sociedades se regulam pelos objetos que alteram o seu dia a dia. Ozu aproveita isso para nos dar alguns momentos lindíssimos e algo ternurentos, até, com os dois irmãos e com as outras personagens que os rodeiam.

Foi sempre um cineasta ligado ao seu tempo e às convulsões geradas pelo progresso e pelas novas mentalidades dos japoneses, e mais uma vez, em Bom Dia, conseguiu dar um retrato fiel, e de contornos sociológicos universais, sobre a relação entre vizinhos (repleta de maledicências e confusões muito próprias de qualquer condomínio) e as preocupações distintas que transtornam miúdos e graúdos.

Hilariante e singular, Bom Dia versa sobre a cultura japonesa através de um problema que afetou todos os países do mundo. E a sua mensagem continua a funcionar, e assim permanecerá atual e marcante, sempre que a Humanidade for confrontada com os contínuos e demasiado velozes avanços da tecnologia, e sempre que Pais e Filhos (e as diferentes gerações a que pertencem) encontrarem diferentes maneiras de ver as coisas e diferentes problemáticas que devem ser resolvidas – ou pelo menos, debatidas e desconstruídas.

É o Cinema a assumir o papel de registador de uma época, através do exemplo da televisão, a sua maior “inimiga” que nos trouxe coisas boas e más – mas que sem a qual a nossa vida não seria a mesma. Contudo, uma coisa também é certa: graças ao pequeno ecrã, a vida humana (e a proximidade que as personagens estabelecem entre si) que encontramos nesta pérola cómica de Ozu alterou-se de uma maneira tão grande, que as imagens bonitas e calmas que vemos ao longo de ternos e geniais 93 minutos não passam disso mesmo: de memórias cinematográficas de outros tempos que nunca irão voltar.

9/10

Ficha Técnica:

Título: Ohayô

Realizador: Yasujiro Ozu

Argumento: Kôgo Noda e Yasujiro Ozu

Elenco: Keiji Sada, Yoshiko Kuga, Chishu Ryu, Kuniko Miyake, Haruko Sugimura, Kôji Shitara, Masahiko Shimazu

Género: Comédia, Drama

Duração: 93 minutos