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Draft Day – Dia D: ambições e negócios no mundo desportivo

O novo filme do realizador de Os Caça-Fantasmas, O Pelotão Chanfrado e Nas Nuvens é um retrato corriqueiro dos bastidores económicos e oportunistas do futebol americano. Não é mais do que um mero divertimento ligeiro, mas ao menos sabe cumprir da melhor maneira essa função nada desprestigiante. Draft Day – Dia D estreia esta semana em Portugal.

É uma fórmula (demasiado) habitual, mas que acaba por funcionar mais uma vez: temos uma equipa de futebol americano que está a fazer uma péssima temporada e Sonny Weaver Jr. (Kevin Costner), o manager da mesma, está a um passo de ser despedido da liderança. Mas no draft day (o dia em que todas as equipas contratam novos e promissores talentos), Sonny tem a oportunidade de reconstruir a sua equipa caótica e desastrosa, e salvar a pouca confiança que os fãs e o seu chefe ainda depositam nas suas ideias, trazendo os melhores jogadores e evitando cair nas armadilhas propostas pela estratégia das outras equipas.

E com isto já conseguimos saber qual vai ser o final da história: juntemos a isto uma história de amor previsível e despropositada, uma série de diálogos recalcados de tantos outros filmes do género e um retrato fiel do espírito do futebol na vida dos americanos, e temos logo Draft Day na sua mais pura e banal essência, mais televisiva do que cinematográfica. E Ivan Reitman é, também, um realizador pouco cinematográfico, mais conhecido pelos sucessos de bilheteira do que pela qualidade e originalidade das suas fitas – à exceção de Os Caça-Fantasmas, que é um êxito de culto, e do premiado Nas Nuvens, Reitman tem-se dedicado maioritariamente a comédias falhadas, sensaboronas e, até, grotescas, como Gémeos, Júnior e Um Polícia no Jardim Escola.

Mas ao apostar num tipo de filme muito apreciado pelos americanos – e que faz regularmente sucesso nas tardes de fim de semana dos canais televisivos generalistas -, o realizador acrescenta-lhe um elemento que o destaca da vulgaridade das outras histórias cinematográficas que giram à volta do mesmo tema. E esse ingrediente é o grande e entusiasmante divertimento que o desenrolar dos acontecimentos e o desenvolvimento das personagens nos proporciona.

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É o que vale o preço do bilhete para este Draft Day: se muitos pretendem, sem sucesso, trazer entretenimento com o mais luxuoso dos espetáculos que a Hollywood contemporânea nos consegue proporcionar, o filme pega nos truques mais habituais e acrescenta-lhes um ritmo muito interessante e fervilhante, que não consegue fazer perder o nosso interesse em relação a esta história, cujos avanços e recuos sabemos adivinhar rapidamente.

Não conseguimos sair do turbilhão de pequenos dramas e comédias que surgem, por mais desinspiradas que possam ser, porque o próprio filme puxa o nosso olhar a seguir, a par e passo, toda a conjuntura – isto, que tão dificilmente se consegue associar a qualidade, é o mínimo que hoje podemos pedir de uma sessão de cinema, e que tantos insistem em deixar de parte. E ao menos haja alguém que saiba cumprir, com distinção, esta função minimalista.

Para além do entretenimento agradável que proporciona, Draft Day tem duas outras qualidades que não podem ser postas de lado. Uma delas é a maneira desenfreada e muito realista com que aborda o mundo desportivo, mais as suas obsessões, manias e receios, e que são também idênticas às de todos os outros desportos. Não é difícil identificarmos o jogo de chantagens e vigarices “legais” que são postas em prática pelos vários dirigentes dos clubes de futebol americano com todas as pequenas perversidades que caracterizam as estratégias portuguesas, no que diz respeito aos pequenos e grandes clubes do “nosso” futebol.

A outra qualidade digna de nota é o elenco, e as interpretações que conseguem tirar das suas personagens de cartão, estereotipadas na sua construção psicológica e nos diálogos que lhes cumprem proferir. Kevin Costner está em grande forma, tal como Jennifer Garner, Denis Leary, Frank Langella, entre outros. Porque se Draft Day revela ser mais um exemplar de uma moda corriqueira de retratar o desporto em cinema, ao menos consegue sair valorizada por aquilo que nos oferece, algo em que muitos dos seus antecessores falharam.

E só por isto, o visionamento de Draft Day já vai ser recompensador. Porque se, de facto, é um filme totalmente de “sábado à tarde”, este será, provavelmente, um desses filmes escolhidos pelas estações televisivas para ocupar as suas programações de fim de semana. Mas a fita de Ivan Reitman será, porventura, um dos melhores títulos que o pequeno ecrã irá exibir, entre a fraca e repetitiva oferta que tem sempre vindo a disponibilizar. Um ótimo divertimento para descontrair, que não dura mais do que aquilo que sentimos e vemos na sala de cinema – mas enquanto estamos dentro dela, não queremos saber de outra coisa.

7/10

Ficha Técnica:

Título: Draft Day

Realizador: Ivan Reitman

Argumento: Scott Rothman e Rajiv Joseph

Elenco: Kevin Costner, Chadwick Boseman, Jennifer Garner

Género: Desporto, Drama

Duração: 109 minutos

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