Tudo acontece dentro de um carro, a partir de vários telefonemas que acompanham o protagonista ao longo de uma viagem com destino secreto… e fatal. Locke pega numa pequena premissa e transforma-a numa reflexão sobre as interações humanas e os acidentes de percurso que acabam por destruir ou construir relações. E tem Tom Hardy em estado de graça.

É a história de Ivan Locke (Tom Hardy), um homem que trabalhou afincadamente para conseguir a vida que sempre quis ter. Dedica-se sempre ao emprego, na área da construção civil, e à família que adora. Mas no dia anterior ao maior desafio da sua carreira profissional, Locke parte numa viagem de carro (cujo fim, à partida, desconhecemos), e que vai desencadear uma série de consequências, que se refletirão nas várias chamadas que ele recebe ao longo do percurso. Esses acontecimentos problemáticos irão colocar em risco tudo aquilo que conquistou.

E Locke é isto: passa-se inteiramente dentro do carro do protagonista (com alguns planos ocasionais que mostram a auto estrada onde está a viajar – numa interseção de planos que, infelizmente, se assemelha a um qualquer anúncio de automóveis), e nele, Ivan discute com os seus colegas e familiares, luta contra os demónios do passado (que ainda o perturbam no presente) e tenta arranjar uma solução impossível para reconciliar todos os laços que quebrou, e todos os contactos que destruiu. E pode parecer pouco, ou até pelo contrário, pretensioso: mas Locke funciona muito bem, graças a esta premissa. E quando acaba, percebemos que esta história, que tem uma continuidade moral e humana tão idêntica a tantas outras clássicas e modernas, só poderia ser filmada através deste esquema cénico e narrativo.

Sentimo-nos sufocados com o constante desenvolvimento da decadência de Ivan Locke. E o argumentista Steven Knight (foi o autor de Estranhos de Passagem e Amazing Grace), neste segundo trabalho em que assume também a função de realizador, mostra como ainda se consegue contar uma boa história através de recursos técnicos minimalistas. O centro do filme está no argumento e na forma como Tom Hardy e os outros atores (ou seja, aqueles dos quais apenas conhecemos a voz) interagem com as decisões arriscadas tomadas por Locke nesta viagem, em que o drama e tragédia parecem não ter fim à vista.

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Por isso é que Locke se revela uma enorme e agradável surpresa: por mostrar que o Cinema pode continuar a apresentar-se, também, nos pormenores mais minimalistas, totalmente afastados da vertente de espetáculo agressivo, massivo, despropositado e completamente tecnológico que parece querer dominar à força as salas, a cada semana que passa.

E ai daquele que pense que este conceito é nada mais do que uma tradição ultrapassada e um grito de apelo ao conservadorismo artístico por meia dúzia de Velhos do Restelo: a tensão que Knight consegue construir através desta história (tão aparentemente simples e simplista), e do ambiente que a ela é proporcionado, vale bem mais do que uma mão cheia de thrillers modernaços, cheios de “pinta”, em que o estilo se sobrepõe a todos os elementos fundamentais para a criação de um filme relevante.

Locke consegue ser um thriller por ir buscar a essência mais essencial do género: sufocar o espectador com a história que está a acompanhar, e que a cada momento lhe aumenta o interesse e o entusiasmo pelo destino das personagens que, habilmente, são manipuladas pela câmara, pelos diálogos, pelos nossos sentidos e emoções. Há que aclamar a realização, ainda algo ingénua (mas muito bem conseguida) de Steven Knight, e o talento enorme de Tom Hardy, que se revela, mais uma vez, um dos grandes atores de cinema do século (e esperemos que desta vez não continuem a aparecer céticos um pouco por todo o mundo cinéfilo).

Locke é uma viagem intimista aos dilemas da humanidade, presentes em todas as situações do dia a dia. De um momento para o outro, todos eles colidem na vida de uma só personagem, num único momento – e é raro conseguirmos encontrar um retrato tão incisivo, e ao mesmo tempo, tão fascinante, sobre aquilo que conhecemos tão bem: a pressão psicológica da vida urbana e a importância dos pequenos erros na criação de gigantescos e incontroláveis problemas. O percurso é mais longo do que a autoestrada parece prever – e somos todos convidados a compreendê-lo.

8.5/10

Ficha Técnica:

Título: Locke

Realizador: Steven Knight

Argumento: Steven Knight

Elenco: Tom Hardy, Olivia Colman, Ruth Wilson

Género: Drama, Thriller

Duração: 85 minutos