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O Bom Inverno: do que morre e do que sobe ao céu

Quando os livros são ricos e tocantes, todas as palavras parecem poucas para os descrever; todas as interpretações parecem cruéis para a sua perfeição. O Bom Inverno, de João Tordo, é um desses livros. Com ele subimos no balão e não queremos voltar a pôr os pés no chão. Sentimo-nos num inverno agreste e, ao mesmo tempo, num verão caloroso. Tememos a página seguinte mas não conseguimos parar de ler. Chegamos ao fim e sentimos uma tranquilidade desassossegada, de que só as grandes obras são capazes.

O protagonista anónimo é um escritor lisboeta que, numa viagem a Budapeste, conhece um grupo de pessoas e é convidado para a casa de um produtor de cinema do qual apenas ouviu falar agora. O seu nome era Don Metzger e a sua mansão em Sabaudia, Itália, onde se juntavam várias personalidades durante o verão. O que acontece em Sabaudia é tudo menos a liberdade da viagem que o nosso narrador esperava: a morte de Metzger apanha todos desprevenidos e a ira de Bosco, seu fiel protetor, impede-os de abandonar a casa sem encontrar o culpado.

Começa com uma morte, tem todos os ingredientes de um policial: um crime, vários possíveis culpados e um homem que procura vingança, louco, sádico e inflexível. À superfície, com o mistério e o thriller à flor da pele, pode ser visto como tal. Mas descascá-lo é descobrir as suas camadas mais profundas, do relato íntimo da primeira pessoa do singular à maravilhosa construção de cada uma das personagens, que rapidamente associamos aos nomes, a rostos imaginados e a personalidades vincadas. Lê-lo é viver ávida e nervosamente o passar da ação, a desconfiança e a busca do culpado, e ao mesmo tempo ver a evolução destas personagens, que vão sendo obrigadas a enfrentar os seus medos e as suas fraquezas mais profundas.

A começar pelo protagonista, do qual apenas não sabemos o nome, pois conhecemo-lo intimamente através das suas próprias palavras sobre os acontecimentos. Se no início é um homem de 30 anos frustrado com a escrita, com uma dor imaginária na perna que o faz coxear, que se escusa a existir e toma a vida como “uma insónia interminável num quarto cheio de melgas”, com o passar das horas intermináveis naquela casa é o único que consegue ter esperança, coragem e força para continuar a lutar – talvez por isso mesmo, por de certa forma ser indiferente à vida.

A evolução é estrondosa: o homem que escreve inicialmente é já o homem que sobrevive à história para a poder contar, mas apercebemo-nos da sua mudança de atitude a cada pensamento que é partilhado connosco. Enquanto tudo à sua volta morre, física ou mentalmente, enquanto todos – mesmo o entusiástico Vincenzo, mesmo o jovem Pym, mesmo a bela Nina – se deixam ir abaixo, o coxo de 30 anos encontra novamente o que há de jovem em si. E quer viver, quer começar tudo de novo. Como se tivesse morrido e renascido ali.

João Tordo foi esse escritor, que em Budapeste ouviu falar de um produtor cinematográfico e da sua casa de verão, e com a sua escrita irrepreensível criou a maravilhosa história deste O Bom Inverno. O ritmo é dialógico, rápido, quase cinematográfico – é o policial que está na história e nos diálogos, à superfície. Na narração pessoal, completada com notas de rodapé que são como pausas para a reflexão do leitor e do próprio narrador, somos interpelados por pensamentos e por uma desconfiança constante em relação ao que é real ou sonhado, ao que é verdadeiro ou interpretado, ao que são as próprias personagens exteriores para sujeito que nos conta a história.

E a história já é bem estranha e complexa por si mesma. A dor, a necessidade de sobreviver, o ódio, o medo permanente, tudo isto leva a convivência de dez pessoas numa casa cercada por um homem demoníaco ao seu maior extremo. É uma experiência intensiva, é um confronto ainda mais intensivo – com os outros, com os seus próprios ‘eus’. O contraste é a vida feliz e quase perfeita que todos tinham antes de Sabaudia com a sua vida após a morte de Metzger: como se, como diz o narrador a certa altura, nenhum deles pudesse ser mais feliz depois de o mandar para o céu num balão de ar quente.

Tudo é trágico e cruel: o desfalecimento das personalidades vivas, a busca incessante e impossível da perfeição e da felicidade por parte de Metzger, a tristeza de Bosco e o balão como símbolo, simultaneamente, da vida e da morte, da perfeição e da amargura. Como uma lágrima negra de baixo para cima, escreve um Tordo anónimo. Como se a morte fosse a única salvação. Como se a todos os verões felizes numa parte do mundo correspondessem tristes invernos no hemisfério oposto.

O Bom Inverno é este jogo de contrastes que nos deixa sempre um gosto amargurado na boca e uma tranquilidade imensa, aliadas a uma felicidade orgulhosa de termos romances e jovens autores desta dimensão no nosso país. Romances e autores que nos ensinam a ser leves, a viver e a comandar os nossos balões de ar quente em direção a um céu que é o limite. Para ler e reler as vezes que for necessário, até a história ser engolida e a poderosa mensagem ser sentida.

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