Será que nos podemos comover e refletir com uma comédia? A Mamã, os Rapazes e Eu!, vencedor do Prémio César de Melhor Filme e que estreia hoje nas nossas salas, responde afirmativamente a esta questão.

O filme funciona como autobiografia de Guillaume Guillienne, retratando o seu relacionamento com a mãe, que o convenceu de que ele é uma rapariga dentro dum corpo masculino, e de como decorreu a sua vida mediante esta ideia.

A Mamã, os Rapazes e Eu! não se afasta muito dos paradigmas das comédias francesas dos últimos anos, o que, visto tratar-se de um filme autobiográfico, não é lá muito bom. Encontramos aqui várias piadas recicladas e empregues novamente num contexto diferente, ditas por personagens ocas e bidimensionais que não são muito mais que adornos na narrativa, como os cameos de Diane KrugerGötz Otto.

Guillaume Gallienne ainda tenta dar o seu quê de originalidade no que toca à parte humorística. O problema é que o seu tipo de comédia não é o mais convencional, é preciso entrar na onda do realizador para encontrarmos humor em algumas cenas. E nem sempre conseguimos encontra-lo. Gallienne tem momentos em que revela perspicácia na elaboração de uma situação cómica, mas na maior parte das vezes as gags do filme são muito infantis e, por vezes, inadequadas.

São estas oscilações entre o humor inteligente e as piadas mais desapropriadas que fazem com que seja difícil para A Mamã, os Rapazes e Eu! ser uma comédia 100% eficaz. Não que seja impossível darmos umas boas gargalhadas aqui e acolá, mas na maioria das vezes as tentativas do filme nos fazer rir saem falhadas, ora porque são inapropriadas, ora porque não são mesmo nada engraçadas, e ficamos com alguma sede de riso.

No entanto, à medida que o filme avança, vai-se libertando aos poucos dos seus clichés e a história principal vai ganhando contornos cada vez mais interessantes. Dá-se mais atenção à identidade de género e às formas como Guillaume, um rapaz que se pensa homossexual devido às pressões da sua mãe, se tenta integrar na sociedade e moldar a sua personalidade, tudo isto tratado com um humor leve que, por fim, funciona. E, à medida que o protagonista se vai apercebendo melhor de quem realmente é, o filme vai-se tornando inesperadamente comovente e ninguém poderá ficar indiferente ao desfecho da narrativa.

Esta é a primeira vez que Guillaume Gallienne se coloca atrás das câmaras. Já era um ator experiente com alguns trabalhos no cinema e no teatro (o filme é, aliás, adaptado da sua peça), e isso é notório na sua espetacular performance, mas acaba por ser o seu trabalho de realização que sobressai. Gallienne sabe utilizar a câmara bastante bem e cria planos que, embora algo previsíveis, sempre ajudam a melhorar algumas situações ditas cómicas (o humor visual funciona melhor que as piadas do argumento). Para além disso, o realizador concebeu algumas metáforas visuais, onde sobressai logo o facto da mãe de Guillaume ser interpretada por… Guillaume.

A Mamã, os Rapazes e Eu! trata muito bem o tema da identidade de género, mas perde ao querer ser uma comédia. Embora fiquemos comovidos com a história de Guillaume Gallienne, que se revela ainda um excelente realizador/ator, as tentativas falhadas de nos fazer rir tornam o filme um pouco irritante.

6/10

Ficha Técnica:

Título: Les Garçons et Guillaume, à Table

Realizador: Guillaume Gallienne

Argumento: Guillaume Gallienne

Elenco: Guillaume Gallienne, André Marcon, Françoise Fabian, Nanou Garcia

Género: Biografia, Comédia

Duração: 85 minutos