Chega hoje a Portugal uma das longas-metragens mais desinteressantes que por cá têm estreado. Uma Morte Necessária quer ser um filme inesquecível e ficará certamente na nossa memória… pelas piores razões.

Após a morte da sua mãe, Charlie Countryman (Shia LaBeouf) viaja para Bucareste onde conhece Gabi (Evan Rachel Wood), uma rapariga romena que também perdeu o pai recentemente. Gabi desperta em Charlie um enorme fascínio e este fica rapidamente apaixonado. O problema é que ela é casada com Nigel (Mads Mikkelsen), um violento criminoso.

Uma Morte Necessária marca a estreia de Fredrik Bond na cadeira de realizador e a sua falta de experiência é evidente. Bond não sabe ainda o que é desenvolver uma história ou criar personagens que se afeiçoem ao público. Dá ainda a ideia de que não se consegue decidir sobre que tipo de filme quer criar, se uma história romântica se um thriller de gangsters. Por vezes parece até que o seu maior desejo é fazer uma comédia psicadélica, cheio de sexo e drogas. O realizador perde-se ainda numa falhada tentativa de elaborar momentos mais surreais que são rapidamente esquecidos por ele.

E o que acontece quando um realizador não consegue definir o caminho que quer seguir? Bem, esse caminho fica muito atribulado e não se chega a lado nenhum. Uma Morte Necessária é um filme pretensioso, que tenta desesperadamente emocionar espectadores enquanto vai fazendo algumas questões, como ‘O que é o amor?’ ou ‘O que define o nosso destino?’. Mas a grande pergunta com que ficamos na cabeça é: ‘Este filme é mesmo sobre o quê?’.

Sim, porque nunca durante as quase duas horas de Uma Morte Necessária há um narrativa definida. A tal bipolaridade desta obra impossibilita que seja dada total atenção a cada pequena história do filme. O romance entre Charlie e Gabi não é totalmente explorado; os conflitos entre Nigel e o amante da sua mulher começam a ganhar real relevo demasiado tarde; as aventuras de Charlie e os seus amigos britânicos, Carl e Luke, são despachadas em breves segundos. A montagem desastrosa de Hughes Winborne (que até já ganhou um Oscar!) também não ajuda, dado que não nos deixa reter completamente o que se passa em vários momentos, tal é a rapidez com que passa de uma cena para outra, como se de um trailer gigante se tratasse.

A realização de Fredrik Bond é muito cansativa e irritante. O tal desejo de elevar o seu filme a um estatuto de ‘obra maior do cinema’ vai levando o realizador por caminhos muito estranhos. As cenas mais românticas entre Charlie e Gabi são filmadas como se fossem um anúncio de televisão, as perseguições de Nigel ao herói da história são-nos apresentadas num interminável slow-motion e os momentos mais psicadélicos e supostamente simbólicos do filme parecem estar ali só para que Bond satisfaça algumas das suas fantasias. Estamos perante um daqueles casos de style over substance, portanto.

Bucareste é onde decorre a ação. A cidade é-nos mostrada como um buraco escuro, repleto de drogados, gangsters e, convenientemente para Charlie, um exagerado número de falantes de inglês. Por outras palavras, Bond criou na capital romena um espaço demasiado americanizado, sem nenhuma paisagem ou monumento característico da cidade. A escolha de Bucareste como cenário de Uma Morte Necessária explica-se apenas por ter custos de produção mais baixos e, se um realizador olha primeiro para os custos do seu trabalho, mesmo em tempos de crise, é evidente a sua falta de ambição.

O argumento do filme é insípido e recheado de clichés. Matt Drake não demonstra qualquer sabedoria na escrita de uma história coerente ou original. Os diálogos das personagens são copiados de tantos outros filmes e podemos ir adivinhando o que cada uma vai dizer a seguir. E tal banalidade, aliada à falta de sabedoria de Bond em criar surpresas num enredo já por si desinteressante, vai tornando o final mais e mais previsível.

Mas enquanto Uma Morte Necessária se vai afundando há ainda uns botes salva-vidas. A fotografia é excelente, sem sombra de dúvida o melhor aspeto do filme, e a banda sonora sempre dá mais força a algumas cenas, que sem ela ficariam monótonas. O elenco está longe de ser espectacular mas acaba por chamar também a nossa atenção. Embora Shia LaBeouf e Evan Rachel Wood não mostrem muita química, eles não deixam de ter os seus momentos. LaBeouf é, aliás, uma boa surpresa, visto que tem aqui uma das melhores performances da sua fraca carreira. E as cenas de Rupert GrintJames Buckley (Carl e Luke, respetivamente), por muito descontextualizadas que sejam, são as poucas que ainda nos fazem rir um bocadinho graças aos desempenhos dos jovens atores.

Chega para salvar Uma Morte Necessária? Não. Nunca. Jamais. Este filme é uma nulidade composta por um enredo desprovido de interesse, um argumento paupérrimo e uma realização pretensiosa. Com tantas obras de excelência ainda por estrear no nosso território, será mesmo necessário encher as nossas salas com fitas deste tipo?

3/10

Ficha Técnica:

Título: The Necessary Death of Charlie Countryman

Realização: Fredrik Bond

Argumento: Matt Drake

Elenco: Shia LaBeouf, Evan Rachel Wood, Mads Mikkelsen, Til Schweiger, Rupert Grint, James Buckley

Género: Drama, Romance, Thriller

Duração: 108 minutos