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Obediência: Submissão, Controlo, Terror

Poucos filmes se inserem a 100% na “gaveta” em que são colocados. De uma forma ou de outra, grande parte das longas-metragens acaba por fugir à categoria na qual estão inseridas, seja pelo carácter multifacetado das suas personagens, seja pelas voltas que dá o seu enredo, seja também pelo cunho distinto deixado pelo realizador. Obediência (Compliance), o mais recente filme do cineasta Craig Zobel, não é exceção: apesar dos vários momentos que justificam a denominação de “drama”, a sua assoberbante intensidade e corrosiva angústia são dignas de um verdadeiro terror psicológico. Obediência não é bonito, é certo, mas isso não diminui em nada a excepcional experiência que é assisti-lo.

Baseado num conjunto de histórias verídicas, o filme fala-nos de uma instalação de uma cadeia de restaurantes fast food, onde a gerente, Sandra, recebe um telefonema de um agente da polícia que afirma que uma de suas empregadas, Becky, roubou dinheiro a um cliente. Guiada pela voz ao telefone, e determinada a obedecer às autoridades, Sandra é instruída a vigiar e inspecionar Becky, ultrapassando pouco a pouco os limites do expectável, do legal e muitas vezes do moral. A premissa da história apresenta-se como algo ingénua, mas uma vez tocado pela situação dos seus intervenientes, o espetador rapidamente se vê envolvido pelos eventos decorrentes como se deles fizesse parte.

Sandra

Obediência é, numa palavra, horroroso. Não no sentido de mau, mas no de sentimental e eticamente “feio”. Quem vê este filme é quase inconscientemente compelido a sofrer com a inocente protagonista, à medida que esta se vê forçada a prescindir da sua honra por ordem de uma autoridade maior, mais por medo que propriamente por respeito. E este sofrimento cresce exponencialmente com o decorrer do filme, fomentado por cenas de intensa agonia e verdadeiro terror. Apenas pelo uso do telefone, o agressor exerce um controlo psicológico absolutamente incrível sobre os funcionários do restaurante, enclausurando-os num hipnótico exercício de perversão moral. À medida que se assiste à ruína total das vidas de todas as personagens, impõe-se uma sensação de inexpugnável desconforto, mesmo com o conhecimento de que nada daquilo é real – uma excecional demonstração de cinema do mais alto nível.

A realização de Craig Zobel é simplesmente magistral. O cineasta oferece aqui tudo o que se espera de um filme da natureza de Obediência: intensidade, suspense, atmosfera, e uma relação muito próxima com as personagens e os sentimentos que vão demonstrando ao longo do filme. Os seus planos são imensamente bem conseguidos, e Zobel parece retirar de cada cena o seu máximo potencial. Adicionalmente, o maior desafio que se lhe apresenta é ultrapassado com excelência: o de dar vida e densidade à personagem que, durante grande parte desta longa-metragem, se faz presente apenas pela sua voz no telefone (a do agente Daniels, interpretada por Pat Healy). De facto, em Obediência, Zobel não é um mero contador de histórias – é um verdadeiro artista, que aqui produz sua arte com a maior das capacidades e o melhor dos resultados.

feet

A nível técnico, Obediência também está predominantemente bem. A sua fotografia não é das melhores já vistas, mas desempenha um importante papel na atribuição de tensão às cenas do filme, com seus tons mais escuros e depressivos. O argumento, que se faz sentir de forma esmagadora através das intermináveis conversas por telefone, podendo parecer algo excessivo em certos momentos, não deixa de ser de grande qualidade. Estes aspetos, no entanto, perdem importância quando comparados com um muito mais marcante: a música. A banda sonora original de Heather McIntosh é magnífica, fazendo toda a diferença nos momentos de verdadeira grandeza do filme.

As atuações, apesar disso, deixam algo a desejar: Ann Dowd é brilhante como Sandra, mas Dreama Walker demora a demonstrar os seus dotes de atriz no papel de Becky, revelando-se apenas no clímax emotivo da história; Pat Healy, que interpreta o sádico e controlador agente Daniels, está bem, mas permanece constantemente longe do que dele se espera como personagem central da ação; e o filme é prejudicado por algumas atuações periféricas, que incorrem muito em estereótipos já usados e abusados. Pouco, no entanto, quando perspetivado em relação à verdadeira magnitude de emoções expressas pelo filme como unidade.

Becky

Obediência impõe-se como uma longa-metragem que frequentemente cativa e raramente desaponta. Não será, decerto, um filme para todas as audiências –  a sua pesada atmosfera e potente conteúdo simplesmente não o permitem. Mas com a disposição adequada, ver este filme é uma experiência que promete maravilhar. As suas falhas pontuais impedem-no de ser um filme “brilhante” no verdadeiro sentido da palavra, mas a excelente realização de Zobel, aliada a um argumento competente, boas interpretações e uma banda sonora indescritível, criam aqui uma obra mais que digna. Obediência é horroroso, sim, mas de forma absolutamente surpreendente.

Nota Final: 8/10

Ficha Técnica:

Título: Compliance

Realização: Craig Zobel

Argumento: Craig Zobel

Elenco: Ann Dowd, Dreama Walker, Pat Healy, Bill Camp, Ashlie Atkinson

Género: Drama

Duração: 90 minutos

  1. Não assistiu o filme até o final e ainda sai falando mal, pois se tivesse assistido totalmente o filme iria entender o porque de uma pessoa obedecer outra através do telefone, sem falar que é baseado em fatos reais e ocorrência nos EUA, ou seja, é aconteceu, acontece!
    O filme mostra como as pessoas podem ser tão influenciadas as coisas absurdas.
    Esse é meu comentário sobre o filme, agora ficar choramingando dizendo se foi bom ou ruim o filme, isso é perca de tempo 🙂

  2. É um filme verdadeiramente insuportável. Não aguentei ver até o final. Pareceu-me muito inverossímil que alguém que é apenas uma voz no telefone tenha adquirido tanto poder sobre todos, sem que ninguém tenha desafiado o agente a fazer o seu serviço pessoalmente ou por meio de seus agentes, e não constranger pessoas comuns a ações sórdidas. Por outro lado, e isso é o interessante, ele parece capturar a cumplicidade de seus ouvintes, que são levados a crer que têm algo a obter da situação, como a realização autorizada de fantasias etc. Como não tive estômago, fiquei sem saber se é realmente um policial na linha ou alguém que se faz passar por tal (peguei o filme já com uns quinze minutos começado). Intenso.

  3. uma porcaria ,ridículo, quem seria tao imbecil de ficar conversando e obedecendo no telefone,uma porcaria ,perdi meu tempo,imagine sem palavras….

  4. Prende a atenção do expectador, mas no meio do filme revela-se totalmente inocente com os argumentos inseridos para ser uma trama bem armada.

  5. Não assisti o filme!
    Portanto fico impossibilitado e tecer comentários a respeito do filme propriamente dito.
    No entanto a primorosa crítica do Pedro Miranda me fez refletir e sentir muita vontade de assisti-lo e dai realmente ter o conhecimento técnico para concordar ou não com o comentário do Pedro Miranda

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