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J.K. Rowling – “Quando o Cuco Chama”: a fama, o dinheiro e a morte

Numa tentativa de se distanciar da fama já obtida com a saga Harry Potter, J.K. Rowling optou pelo pseudónimo Robert Galbraith para lançar o seu mais recente livro, “Quando o Cuco Chama” (The Cuckoo’s Calling). Quando Lula Landry, uma modelo em ascensão, é encontrada morta no exterior do seu apartamento em Londres, cabe ao detetive privado Cormoran Strike, a pedido de John Bristow – irmão adotivo de Lula –, provar que Landry não se suicidou, ao contrário do que a imprensa deu a entender a todo o país.

O primeiro fator pelo qual o leitor se sente imediatamente atraído é a caraterização genial de cada personagem e a relação que as mesmas establecem entre si, nomeadamente a relação embrionária de Cormoran com a sua secretária temporária, Robin. A noiva de Cormoran deixara-o recentemente e Robin acabara de ficar noiva, factos que lançam as sementes para uma relação, à partida, embaraçosa e estritamente formal. No entanto, a secretária revela ser extremamente inteligente e competente, entusiasmando-se com o trabalho do patrão, e os dois formam uma amizade incomum – com um toque de humor –, que raramente encontramos em qualquer obra policial.

Quando o Cuco Chama” transporta-nos imediatamente para a Londres do século XXI, jogando com temas como o dinheiro, as drogas, a fama e o confronto entre raças. Lula era uma rapariga de raça negra, adotada desde cedo pela família Bristow. No entanto, ao enveredar pela vida de modelo, depressa se vê atacada pelo ambiente sufocante que a fama proporciona.

Quando o Cuco Chama

Desta forma, à medida que acompanhamos Cormoran na sua investigação, somos convidados a deambular pelas discotecas que Lula frequentava, pelas boutiques onde comprava roupa, pelos centros de reabilitação que frequentara, etc. Este trabalho policial não é, desde cedo, um mero esforço por descobrir o assassino de Landry; é também – e principalmente – um retrato do mundo ilícito que as celebridades escondem por detrás das máscaras que são apresentadas pela imprensa.

O tema fulcral da obra gira em torno do dinheiro, assunto já muito trabalhado no género policial. Contudo, Rowling humaniza as suas personagens de tal forma que Lula, apesar de morta, quase que surge como uma verdadeira mulher que nos expõe a sua trágica história ao longo do romance. O que encontramos nesta obra e podemos não encontrar em muitas outras é, de facto, a forma detalhada e preocupada com que Rowling descreve os estados de espírito e as ações de cada personagem.

A conclusão, apesar de ter o seu toque de surpresa tão característico do género policial, é atingida de uma forma que facilmente nos remete para o trabalho de, por exemplo, Agatha Christie. Cormoran entra em confronto com o culpado e desvenda mais um par de tragédias de modo a chocar o leitor; ainda assim, ficamos com a sensação de que toda a trama foi resolvida, como se costuma dizer, “com uma perna atrás das costas”.

Em suma, percebemos que “Quando o Cuco Chama” consegue, de facto, fazer jus ao género, expondo-nos um enredo composto por inúmeras pistas e possíveis suspeitos, relatado num ritmo cada vez mais acelerado até o desfecho ser atingido, de uma forma já tão conhecida pelo público. Por outro lado, esta obra – tal como acontecera com a anterior da autora, “Uma Morte Súbita” (The Casual Vacancy) – é sobretudo uma pintura crua e realista dos vícios e das tragédias a que Londres – como qualquer outra cidade – está sujeita, sobretudo os cidadãos dominados por esse mal que é a fama.

NOTA: 8/10

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