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O Clube de Dallas: O Apogeu de McConaughey e de Jared Leto

O Clube de Dallas estreia finalmente nas salas portuguesas, um curioso filme que se assume como uma das verdadeiras pérolas desta Award Season. Se em Fuga, McConaughey se desprende da sua carreira menos brilhante enquanto ator, em Dallas ele afirma-se como um dos mais talentosos artistas da sua geração, e nem me falem do “novato” Jared Leto.

Em 1985, Ron Woodrof (Mathew McConaughey), um eletricista de Dallas é diagnosticado com Sida. Numa altura em que o síndrome é muito associado à homossexualidade, rapidamente ele se vê excluído da sua própria comunidade. É então que, no hospital, ele conhece um travesti, de nome Rayon (Jared Leto) com o mesmo problema. Juntos abrem um clube de ajuda a pacientes com VIH, para que os mesmos tenham a medicação que realmente precisam.

Jean-Marc Vallée, o realizador, entrega-nos talvez o seu filme mais inspirado até à data. Com uma carreira ainda razoavelmente curta e desprovida de grandes filmes, salientando-se talvez o Jovem Rainha Victoria e o C.R.A.Z.Y, este acaba por se afirmar como uma grande surpresa na carreira de Vallée. Um filme indie americano que faz a delícia dos espetadores não tanto pelas suas virtudes técnicas mas pela narrativa e, principalmente, pelas assombrosas performances de McConaughey e Leto.

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O peculiar da narrativa é que ela, mesmo sem se esforçando muito, consegue criticar dois grandes problemas que ainda hoje existem na sociedade norte-americana. Por um lado o preconceito, por outro a corrupção. Se na década de 80 estes problemas eram bastante mais evidentes, a ponte que se cria para a contemporaneidade  existe e dá-se na audiência, que sai da sala a repensar os seus atos. A própria relação de Woodrof com Rayon ajuda a uma certa desmistificação da homossexualidade e da transexualidade, um processo moroso no filme que ajuda também a que os próprios espetadores, até aqueles mais sensíveis a estes supostos tabus da sociedade, também deixem qualquer tipo de preconceito de lado e se embrenhem no filme.

Outra questão bastante interessante e subtilmente tocada pelo filme é a questão da medicação e de todo um lobby farmacêutico que existia nos Estados Unidos. O país ainda hoje luta por um sistema de saúde público, os problemas estão longe de estar terminados quanto a este campo. O filme serve para alertar para a corrupção de um nicho de mercado que se preocupa mais, talvez ainda hoje, em lucrar que em encontrar a medicação certa para os seus pacientes. Todos estes assuntos de ordem social foram tidos em conta, a narrativa envia, com cuidado, a audiência até eles, fazendo-a refletir através de trágicas histórias que comovem do principio ao fim do filme.

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Claro está, que este filme acaba por se construir muito na base do apelo à emoção, mas isso não significa que seja mau. O filme apela à emoção porque a história assim o obriga e se Vallée pretendia passar uma mensagem, ela é totalmente perceptível através dessa emoção e, principalmente, da comoção. Posto isto, o filme inevitavelmente vive das suas performances. Tanto Mathew McConaughey como Jared Leto elevaram bastante esta longa, é graças a eles que tudo isto passa para o espetador, é graças a eles que este filme tem tanto carisma e cria laços tão fortes connosco que nos é capaz de meter na eminência das lágrimas em poucos segundos.

O filme nasce, cresce e morre em volta deles, a química entre ambos é excelente e se não forem indicados aos prémios da Academia é porque algo de errado se passa. Ou muito me engano ou estão aqui as duas performances masculinas do ano, principalmente Jared Leto que largou o palco e se lançou novamente ao cinema, depois de estar 4 anos afastado das câmaras. E que retorno! Talvez a sua melhor performance até hoje.

Em suma, O Clube de Dallas merece ser visto, é um filme que nos mete a indagar sobre nós próprios, um filme que quebra com certos tabus que podemos ainda ter sobre um síndrome tão mal visto perante a sociedade, um filme que nos ensinará algo e que promete também, por outro lado, devastar a nossa alma.

8/10

Ficha Técnica:

Título Original: Dallas Buyers Club

Realizadores: Jean-Marc Vallée

Argumento: Craig Borten e Melisa Wallack

Elenco: Mathew McConaughey, Jared Leto, Jennifer Garner

Género: Drama, História, Biografia

Duração: 117 minutos