Arcade Fire

Reflektor

Número 1 nos Estados Unidos, no Reino Unido e, lá está, em Portugal. As vendas valem o que valem (ou seja, nada), mas, neste caso, só vêm reafirmar aquilo que já muitos fãs já sabiam: os Arcade Fire têm vindo a transformar-se, desde o disco de estreia (Funeral, de 2004), numa das maiores bandas do mundo. E este Reflektor, lançado no passado dia 28 de Outubro pela Merge Records, só vem reiterar isso mesmo, assumindo-se como um dos grandes discos de 2013.

Comecemos pelos defeitos, que são poucos e fáceis de enumerar. Em primeiro lugar, a salganhada conceptual que envolve este Reflektor; ora nos fala de Kierkegaard e da alienação dos tempos (pós-) modernos, como nos conta a história de Orfeu e Eurídice (passada pelo filtro de Orfeu Negro, filme brasileiro de 1959), ou passa os olhos pela herança cultural haitiana deixada em Win Butler e Régine Chassagne. Enfim, uma autêntica confusão que nos faz, de quando em vez, suspirar pela concisão e subtileza de The Suburbs (2010) e do seu conceito, bem mais fácil de executar (e entender).

Em segundo lugar, a duração; sejamos honestos, se The Suburbs já nos parecia um disco “avantajado”, com os seus admiráveis 64 minutos, então o que dizer deste “paquidérmico” Reflektor, que traz mais 11 minutos de “palha”? E isso leva-nos ao terceiro e, até ver, último defeito do registo: a malfadada inconsistência. A falta de tento na hora de editar e cortar o que está a mais leva a que, aqui e ali, se note uma certa falta de coerência na qualidade (ou pertinência) das faixas deste quarto álbum dos Arcade Fire. E isso não é propriamente abonatório para o veredicto sobre o produto.

reflektor

Mas se estivermos preparados de antemão para estes ligeiros desvios na rota, a viagem pelos caminhos deste Relfektor torna-se muito mais suave e consegue levar-nos, de forma perfeita, às maravilhas da sua sonoridade. Sonoridade essa que demonstra algumas diferenças em relação aos seus antecessores, a começar na mudança de influências mais directas; Bruce Springsteen e Joy Division recuam para dar maior destaque a LCD Soundsystem, David Bowie, Talking Heads, Michael Jackson e, aqui e ali, rara haitiano. O resultado é um disco muito mais amigo da pista de dança, repleto de sintetizadores e linhas de baixo viciantes, ao bom estilo pós-moderno que ousa misturar, profanamente, art rock de alto padrão com o disco sound repleto de azeite dos nossos guilty pleasures.

Contudo, e de uma forma algo paradoxal, também fez com que Reflektor trouxesse ao som dos Arcade Fire um carácter mais comedido nas explosões rock (a única plenamente digna desse nome dá-se apenas em Normal Person), dando uma certa tensão ao registo. Tensão essa maravilhosamente aliviada pelos sound bites lançados entre canções, numa espécie de auto-ironia à lá James Murphy (que, em conjunto com Markus Dravs e a própria banda, produz de forma magistral o LP) que desarma qualquer olhar sério e cínico para este Reflektor.

Por esta altura, já devem estar a adivinhar, o meu conselho é: oiçam o álbum por inteiro, de fio a pavio. Porém, se quiserem mesmo poupar tempo e passar logo para as melhores partes, a viciante Reflektor, a tensa We Exist, a feroz Normal Person, a doce You Already Know e a arrepiante (e reitero: A-R-R-E-P-I-A-N-T-E) Afterlife serão, provavelmente, as que vos darão a experiência mais gratificante. Por outro lado, as tépidas Joan of Arc, Porno e Supersymmetry e a detestável Flashbulb Eyes são, a meu ver, as peças menos conseguidas do conjunto.

Resumindo, Reflektor não consegue superar The Suburbs (e já que aqui estamos, também não supera Funeral), mas é, sem dúvida, o melhor sucessor que o terceiro LP dos Arcade Fire alguma vez poderia ter tido. Ousado, surpreendente e, acima de tudo, muito bem composto, este Reflektor é mais um daqueles discos que vai marcar toda uma década, tal como Funeral o fez há quase dez anos atrás. E, convenhamos, nunca soube tão bem ver uma banda com o estatuto (e a suposta seriedade) dos Arcade Fire a vestir um papel tão irónico como este.

Nota final: 8.6/10

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945

  1. Boa crítica!

    Concordo em tudo com o que disseste. A Normal Person é, como tu dizes e muito bem, a única malha explosiva do álbum que nos traz o David Bowie à memória. E é uma pena de facto.

    Gosto mais da primeira metade do álbum, embora na segunda metade estejam duas músicas, a meu ver, excelentes: Afterlife e It’s Never Over (Hey Orpheus).

    E concordo quando dizes que a Flashbulb Eyes é detestável mas, curiosamente, imensos críticos adoram esse tema.

    O engraçado é que notas logo de forma bastante visível – isto se fores um conhecedor de LCD Soundsystem claro – a mãozinha do James Murphy na criação do álbum.

    Só espero que venham em concerto próprio.

    1. Fico feliz por teres gostado, Ricardo.

      Em relação à Flashbulb Eyes, é normal que muitos críticos a adorem: é a canção que demonstra de forma mais evidente as influências caribenhas neste novo disco. Eu apenas não gostei dela porque está, a meu ver, muito insípida e corta um bocado o ritmo do álbum logo no início.

      Em relação à produção do James Murphy, esqueci-me de fazer menção a isso na crítica, mas é bem verdade que toda a estética está muito inspirada no trabalho dele nos LCD Soundsystem. Para um bom conhecedor, basta ouvir a Reflektor para detectar logo aquela bateria ríspida, meio maquinal, que tantas delícias me fez no passado.

      Quanto ao concerto em nome próprio, isso seria o ideal, mas infelizmente só existe um espaço com lotação suficiente para os acolher: o MEO Arena (e eu já tremo só de pensar que vou ter de ver The National naquela acústica terrível). Por isso, o melhor talvez seja mesmo apanhá-los no Optimus Primavera Sound’14, isto se eles vierem cá dar um saltinho.

      Um abraço e espero que continues a ler assiduamente as nossas críticas 😉

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