O Aldrabão ©Filipe Ferreira_14

Nasce um “Aldrabão” no D. Maria II

A sala principal do Teatro Nacional D. Maria II voltou a abrir para uma nova temporada de teatro e cultura na capital. Chegou o momento d’ O Aldrabão subir ao palco para nos provocar algumas gargalhadas e, em simultâneo, pensar na contemporaneidade do texto.

As portas abrem, o público é convidado a entrar e a Sala Garrett torna-se ainda mais mágica, com um cenário tão bem produzido e com uma luminotecnia de arregalar os olhos.

Estamos na Grécia Antiga e, ainda a luz do público não diminuiu, chega Plauto – para, num texto muito improvisado, fazer os habituais avisos à plateia à medida que nos enquadra na ação.

João Mota, diretor artístico do Teatro Nacional e encenador do espetáculo, opta claramente por colocar esta peça em cena como crítica à actual classe política e ao estado de Portugal, e afirma-o, na sua quase-personagem, num preâmbulo improvisado de uma peça em que o prólogo se perdeu: “Nada funciona neste vosso país”.

“Merda!”, para Virgílio Castelo, ou Pseudolo, e para todo o elenco, que o espetáculo vai começar.

Começa então a viagem de uma hora e quarenta pelo cenário idílico de Atenas. É nela que conhecemos as nossas personagens. Um elenco variadíssimo e recheado de cor que é habilmente liderado por Virgílio Castelo, Rui Mendes e João Ricardo.

O Aldrabão ©Filipe Ferreira_22

O Aldrabão é considerada uma das melhores comédias de Plauto e reúne todos os elementos que compõem uma boa peça grega: uma subtil crítica social, personagens-tipo e a presença de um herói astuto e com uma língua constantemente afiada.

Os apartes e as adaptações do diálogo à atualidade são constantes nesta comédia, onde o protagonista tenta ajudar Calidoro, filho do seu amo, a conseguir comprar de volta a sua amada, pertencente a um impiedoso e afeminado alcoviteiro, ao mesmo tempo que tenta reforçar o seu estatuto como maior aldabrão de Atenas ao enganar simultaneamente todas as personagens que o rodeiam.

Apesar de tudo, é o público o centro da ação – é para o público que todos os atores se transformam em personagens, é para esse mesmo público que as personagens se dirigem, comprovado pelo anti-black-out da plateia – permanece sempre aceso sobre nós aquele candeeiro majestoso de cristal que ilumina, num ambiente quase sombrio, os sorrisos de cada espetador.

O elenco masculino apresenta-se diante de nós como um elenco de luxo, mas destaque-se o trabalho de João Ricardo que apresenta sobre ele um trabalho louvável de construção das suas personagens: transpondo para a contemporaneidade, as personagens gregas tomam uma outra dimensão, e o público não consegue ficar indiferente. No meio de esquecimentos ou “aldrabices” feitas ao texto, é de louvar apenas a forma como os actores, na relação entre si, se conseguem fazer entender mesmo quando se sentem perdidos no texto: “Olha lá, não tens mais nada para perguntar?” – não, apenas aplausos.

O Aldrabão ©Filipe Ferreira_27

A somar à prestação de João Ricardo, não deve ficar esquecida a prestação de Virgílio Castelo, personagem principal da ação e Rui Mendes, aquele à volta da qual toda a ação anda envolta. Pseudolo, ou Virgílio, tem uma relação impressionante, não só com as personagens restantes, mas também com o próprio público. A proximidade, fruto de uma encenação madura e bem conseguida, permite facilmente, a gargalhada ou a consciência social vir ao de cima. Por fim, aplausos que obrigam o elenco a reentrar 5 vezes – uma plateia cheia de gente, amante do teatro, que aplaude de pé. Rui Mendes apresenta-nos um trabalho complicado, mas bem conseguido: é através do exagero do movimento do seu corpo, juntamente com uma voz mais fina, que é imprescindível soltarem-se algumas gargalhadas. No clássico texto, esta personagem já apresenta uma grande profundidade psicológica e humorística, mas Rui conseguiu, de forma elegante, dobrar essa perceção de uma personagem complicada e cómica, para uma personagem quase hilariante.

Contudo, não só no palco, propriamente dito, acontece magia. Há uma banda nas nuvens, que acompanha os movimentos e as palavras dos atores: talvez seja ela o famigerado Júpiter, aclamado Deus grego. Uma banda que nunca atinge a Terra – porque é o céu. É de lá que vêm as respirações ofegantes de uma embriaguez repentina ou uma lágrima inexistente de um trágico.

A meio, um cenário não muito complexo. Apenas três portas dão acesso para a casa dos três homens-livres do texto dramatúrgico. Portas mágicas, ao juntar-se o desenho de luzes claras, sempre claras, como se no céu permanecêssemos, constantemente. Estamos na Grécia Antiga, a confrontar-nos com um texto assustadoramente atual, e, para essa situação, nada melhor que aplaudir também Carlos Paulo, responsável pelos figurinos deste espectáculo. Tudo se complementa neste espectáculo e, por isso, a magia acontece.

“Eles pagaram bilhete para verem uma comédia!” – pagámos, e ainda bem. São espectáculos assim que nos dão mais alento para perseguirmos os nossos sonhos, sem aldrabices. O Aldrabão está em cena até dia 17 de novembro na Sala Garrett do Teatro Nacional D. Maria II.

Artigo escrito com a colaboração de André Franco

Fotografias de Filipe Ferreira

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