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Mário de Carvalho: “O meu trabalho é o de modelar personagens, situações, acções”

Estamos a 10 de Junho e hoje comemora-se o Dia de Portugal, data assinalada pela morte de Luís Vaz de Camões. O dia é reservado para celebrar a língua portuguesa que «é uma língua muito rica, com muita variedade lexical e vocabular, e com muito poder expressivo». O Espalha-Factos esteve à conversa com Mário de Carvalho, na 83ª Feira do Livro de Lisboa, após uma sessão de autógrafos do escritor, no pavilhão da Porto Editora, que tem procedido à reedição de alguns livros do autor.

Mário de Carvalho, descendente de alentejanos, nasceu em Lisboa, a Setembro de 1944. A “Menina e Moça” é o lugar privilegiado dos seus escritos. Frequentou o Liceu Gil Vicente, onde foi colega de turma de João Aguiar e Eduardo Prado Coelho. Licenciou-se na Faculdade de Direito de Lisboa. Nasce em plena ditadura fascista e a sua acção política será de resistência ao regime salazarista desde muito cedo. Esteve preso e exilado nas vésperas do 25 de Abril. Após a Revolução dos Cravos, Mário de Carvalho dedica-se inteiramente à literatura. O autor é romancista, contista, dramaturgo e argumentista.

Até hoje, já publicou 22 obras… Uns são romances, muitos são livros de contos, outros são peças de teatro e ainda algumas novelas. Qual é o género que mais lhe apraz escrever?

Ainda bem que fez o favor de os contar, porque eu nunca os contei (risos). Ora bem, depende das alturas. Há alturas em que podemos estar saturados do romance que acabamos de escrever e saltamos para o teatro, por exemplo. E, se ficarmos cansados, saltamos para outra pista. No meu caso, escrevi também para cinema. Mas depois há sempre contos que vão aparecendo e que nós vamos guardando.

E que como é que aparecem esses contos? Como é que lhe surgem as ideias para novas histórias?

Às vezes de uma conversa, às vezes de uma atitude ou comportamento, às vezes de uma leitura. Ou de tudo isto misturado. E às vezes também de uma frase, de algo que se ouve dizer. E ainda, claro, da nossa vivência pessoal, de todos os dias, dos confrontos que temos com a vida e com os outros. Também de histórias que nos contam, histórias que ocorreram com os nossos amigos, que nós depois usamos de uma forma combinatória. Isto é, vamos transfigurar aquilo que nos chega e arranjá-lo e afeiçoá-lo de uma outra forma, adaptando-o ao uso da língua portuguesa.

Sente uma necessidade de passar para o papel as histórias que lhe surgem?

Tudo começou por ser uma forma de eu devolver aquilo que me tinha sido oferecido, quer pelas minhas leituras, quer pela minha vivência cultural e artística, quer pelo meu contacto com os outros… Eu sempre tive a ideia de que muitas coisas me haviam sido oferecidas e eu respondi desta maneira. Devolvi essas coisas desta maneira.

Há uma ideia que é comummente partilhada por quem não escreve que diz respeito ao facto de a escrita provir de momentos de inspiração…

(Risos). Não sei se é inspiração se é aspiração… Incomoda-me um bocadinho essa ideia do toque divino, como se de repente descesse o espírito sobre os autores, como se fossem de certo modo apadrinhados pelo Além, por uma entidade sobre-humana. Pode ser que nos autores haja uma especial inclinação para lidar com a língua mas, provavelmente, tudo provém essencialmente de um poder de observação muito próprio, muito especial. Eu já tenho reparado que, muitas vezes, as perguntas que eu faço, em várias ocasiões, são aquelas que não interessam às pessoas, que só me interessam a mim. Interessam-me, porque vão parar ao meu laboratório pessoal e, mais cedo ou mais tarde, elas vão aparecer reformuladas, transfiguradas e devolvidas. Portanto, provavelmente há um sentido diferente, aquilo que se chama de talento. O talento de lidar não só com a língua, mas também com as personagens e as situações, dando-lhes uma conformação própria. Pode ser que no meu caso isso exista, pelo menos têm-me dito… (Risos).

Foto: JN
Foto: JN

E onde costuma escrevinhar?

Costumo escrever em casa. Houve um tempo em que me era muito mais fácil escrever em vários sítios como o escritório, por exemplo, e aproveitar todos os momentos para tomar notas e ir compondo o livro. Neste momento, escrevo só em casa. É-me importante que haja um silêncio absoluto em volta. Tenho o meu canto. Tenho o computador e muitos livros à mão… É aí que me acomodo para escrever quando já tudo está em repouso, quando cão e gato estão arrumados, quando todos já estão a dormir. Sou um noctívago caseiro.

Descreve “Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias Sobre O Assunto” como um cronovelema. O que quer dizer com isso?

Cronovelema é um neologismo que ainda não foi dicionarizado, mas pode ser que venha a ser, um dia. (Risos). É um texto que tem que ver com a actualidade. Que tem que ver com a crónica, com a novela, com o poema e, também, com o cinema. Tudo se encontra intrincado num mesmo texto, que é o caso do “Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto”. O vocábulo cronovelema surge da conjugação dessas palavras. Foi esse aspecto de resposta ao tempo presente, ao cronos, que me levou a usar essa expressão. Nem todos os meus livros são cronovelemas… Dispensamos “Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde”, por exemplo, que é um romance histórico. Mas aqueles apontamentos de actualidade, podem ser englobados nessa designação, creio.

No prólogo do mesmo livro, cita Camilo Castelo Branco com «Sinceramente, não sei corrigir-me do vício das divagações». Considera-se um homem de divagações?

Tem muito que ver com esse livro em concreto, com esse cronovelema. O autor, de vez em quando, resolve divagar e sugere ao leitor que o acompanhe. Não sou muito um homem de divagações, mas muitas vezes dou-me ao luxo e exerço o direito de deambular na minha escrita. (risos).

Já foi considerado por muitos um homem da ficção, um homem de histórias. Revê-se nesse papel?

É difícil não me rever, porque eu sou efectivamente um homem da ficção. Ficção vem do latim fictio, que significava moldar com o dedo, modelar. O meu trabalho é muito esse. É o trabalho de modelar personagens, situações, acções. De maneira que o qualificativo é capaz de ser adequado. Eu prezo muito a língua portuguesa. É uma língua muito rica, com muita variedade lexical e vocabular, e com muito poder expressivo. Veja bem: na terra dos meus pais, uma vez perguntei a uma pessoa se certa casa era muito grande e responderam-me “Não tem muita dúvida”. Não há nenhuma relação entre uma coisa e outra. Simplesmente o que ele queria dizer era que a casa não era muito grande, e esta expressão é, de facto, de uma originalidade e de uma riqueza perfeitamente espantosa. Portanto, nós podemos dizer as coisas em português das mais diversas maneiras e o trabalho do escritor está em encontrar qual é aquela mais expressiva, qual é a que melhor se adequa à narrativa, a que melhor conta a história ou que melhor exprime os sentimentos.

Esta é uma pergunta muito ingrata mas, de toda a sua obra, qual o livro que mais lhe diz algo?

De facto, é ingrato estar a desqualificar uns em função de outros. Isto porque na altura em que os livros aparecem, eles são todos muito importantes. Porque na altura era aquilo que se impunha escrever… Mas posso distinguir duas coisas em particular: Em relação ao “Casos do Beco das Sardinheiras”, posso dizer que é a única ocasião em que me recordo de ter sorrido enquanto estava a escrever. Normalmente, eu não me acho graça nenhuma e nesse caso, não… Quer dizer, não é que estivesse a achar graça ao meu texto, mas estava a achar piada às situações. E isto já foi há mais de 30 anos! O outro, foi um livro que me custou muito em pesquisa, que foi o “Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde”. Na altura não havia as facilidades da wikipédia, que nos dá logo uma pequena ideia das coisas, um primeiro contacto, que pode vir a ser muito útil neste tipo de obras, apesar dos seus erros. E esse livro obrigou-me a derrubar várias bibliotecas! Li tudo o que dizia respeito àquele período de Marco Aurélio, na história romana. E penso que não me saí muito mal… Mas devo dizer que o livro me saiu do pelo porque deu muitíssimo trabalho. Aliás, eu não concebo que se escreva um romance em que se proponha ao leitor que se situe em certa época sem que se procure o mais possível ser verosímil. Ou seja, há que lidar com tudo, em termos de linguagem, de correcção histórica… Há que saber do que se está a falar.

Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde

Uma das coisas mais patentes nas suas obras são as referências à cidade de Lisboa…

A minha meninice fundamentalmente é feita em Lisboa, e os Verões passados no Alentejo. Mas a velha Lisboa da Graça, de Alfama, da Penha de França era a Lisboa que eu calcorreava em miúdo. Na altura ainda se brincava na rua e reflexos desses tempos aparecem no “Casos do Beco das Sardinheiras”, por exemplo. Conheci muito bem a zona de Alfama e da Mouraria… Andei no Liceu Gil Vicente e muitas vezes nós deambulávamos por ali, faltávamos às aulas, íamos aos cinemas… De maneira que essa impressão de Lisboa ficou muito profundamente marcada. Além disso, muito mais tarde, fui-me apercebendo que é uma cidade maravilhosa, magnífica, carregada de memória, carregada de história, com a fisionomia muito particular. É uma cidade única. Talvez só depois de ter ido ao estrangeiro e de ter conhecido outros ambientes, outras cidades é que tive o cuidado de apreciar ainda mais a beleza muito especial, muito peculiar de Lisboa.

Uma das suas paixões é Lisboa. Quais são as outras?

Eu não sou muito homem de paixões, sabe? (Risos). Eu só tenho gostos, como toda a gente, mas não sou um homem muito apaixonável. De que é que eu gosto? Gosto de cinema, por exemplo. Mas tenho uma abordagem, reconheço, que é muito especial. Isto é, não dá para encontrar em mim os mesmos gostos dos cinéfilos. E muito menos naqueles que são beatos do cinema. Eu não sou beato de nada! (Risos). Portanto, gosto de cinema e, embora saiba pouco, gosto de pintura. E adoro música. Deslumbra-me! Mas não sou capaz de produzir uma nota musical e tenho mau ouvido. Dá-me impressão que eu gosto muito daquilo que está fora do meu alcance, aquilo que eu não percebo. Admiro imenso os grandes cientistas, os grandes pintores, os grandes músicos e alguns grandes escritores.

Quais são os grandes músicos que admira?

Mozart, sem dúvida. E há uma peça que eu gosto muito do Beethoven e que nem é uma das obras dele em que se fala mais. Mas fico sempre deslumbrado a ouvir e ouço repetidamente que é o Triplo Concerto. Costumo ouvir música antes de escrever e enquanto escrevo. Aliás, tenho sempre os auscultadores à mão. Na minha mesa está todo o equipamento! (Risos).

Foto: Miguel Madeira - Público
Foto: Miguel Madeira – Público

E destaca em especial algum livro publicado nos últimos anos de um(a) autor(a) nacional?

A “Viagem à Índia” do Gonçalo M. Tavares. Acho que, de facto, é uma coisa inovadora, um bocadinho inquietante e, de certo modo, desbravadora de caminhos.

Qual é o livro que está, neste momento, na sua mesinha de cabeceira?

O livro que está na minha mesinha de cabeceira até é muito pouco recomendável (risos). É de Funck-Brentano, um autor de extrema-direita, que escreveu um trabalho sobre a prisão na Bastilha, que me interessou. É esse que estou a folhear neste momento, pela segunda vez. Eu não gosto do autor, não gosto daquilo que o autor representa, mas interessa-me por razões profissionais.

Nascido em plena ditadura salazarista, o Mário de Carvalho parece ter nascido para não se conformar. Esteve preso e exilado. Depois da Revolução dos Cravos e de uma actividade política intensa, afastou-se e dedicou-se à literatura. Porquê?

A minha actividade política no fundamental foi uma actividade de resistência. Tratava-se de resistir contra aquele regime. Era preciso fazer alguma coisa para ultrapassar aquela situação horrorosa que tinha sido criada. Eu fui preso por coisas que hoje parecerão completamente destituídas de sentido. Portanto, a necessidade de me juntar a outros e de juntos combatermos o regime em nome da democracia governamental, aquilo que inicialmente nos interessava, foi o que me moveu. E depois participei na euforia um bocadinho alucinada do 25 de Abril e do PREC. Mas, depois, entendi que a ditadura estava removida e que a democracia estava instaurada. E era tempo para mim de escrever, sem nunca prescindir da acção cívica activa. As causas simplesmente já não necessitavam tanto da minha presença.

Para si, qual é o papel da literatura na política?

Eu nunca encarei a literatura como uma forma de agir politicamente. Até porque a acção política se faz em cada momento, na conjuntura. O panfleto destina-se ao momento. Alguns dos meus livros foram publicados há 30 anos e continuam a ser produtivos e a ser refeitos pelos leitores e a interessar aos leitores. Mas, se aqueles livros tivessem sido panfletos, teriam interessados aos leitores daquele momento, quando foram publicados. Naquele ano, talvez só naquele mês. Mas como estão numa plataforma diferente, são lidos ainda hoje. E espero que sejam lidos depois, também… O terreno da acção política é muito diferente da literatura. Mesmo que se cruzem e que certamente coincidam, não são o mesmo. Nós, quando compomos música, fazemos cinema e teatro e escrevemos, estamos a ser mais do que nós. Usando a expressão de Fernando Pessoa, “Aqui ao leme que sou mais do que eu”. É como se a dimensão humana se expandisse, como se fossemos um bocadinho mais além. É isso que é importante na literatura: tornarmo-nos mais humanos. O aprender muito melhor as coisas, o trazer o outro lado das coisas. Dar uma outra dimensão ao homem. A literatura está nesse terreno, de afirmação de humanidade, no sentido em que temos sempre muito para dar.

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