yo la tengo

Fade

Amados e respeitados pela crítica e objectos de um fervoroso seguimento de culto, os Yo la Tengo são, a par dos Sonic Youth e dos Dinosaur Jr., uma das grandes instituições Indie que ajudaram a moldar, nos anos 80 e 90, aquilo que conhecemos como o Alternative Rock norte-americano. Prolíficos como poucos, Ira Kaplan (guitarra/voz), Georgia Hubley (bateria/voz) e James McNew (baixo/voz) lançaram no início deste ano, a 15 de Janeiro, o seu 13º disco de originais. A obra tem o título de Fade e é sobre ela que vamos hoje falar.

Com uma carreira iniciada em 1984 e que tem por base a relação amorosa que une Hubley e Kaplan (com McNew a assumir o papel de vela desde 1992), os Yo La Tengo têm conseguido traçar, ao longo dos anos, um percurso excepcional que tem sido alimentado por uma aversão à monotonia sonora e um amor desbragado ao experimentalismo e à vontade de mudança. Esse espírito aventureiro, algo raro nos dias que correm, faz com que este trio norte-americano seja capaz de, no seus discos, soar a várias bandas diferentes, sem que perca por isso a sua identidade musical bem vincada.

Não é de admirar, portanto, que cada novo lançamento de Ira Kaplan e companhia seja antecipado com grande entusiasmo pelos círculos de seguidores do trio; afinal de contas, é preciso estimar as já raras bandas “históricas” dos anos 80/90 que ainda se mantém no activo a lançar discos de forma prolífica e bem oleada. Fade, o 13º álbum do grupo, não foi excepção, tendo sido aguardado com desmedida excitação pelos fãs (nos quais eu me incluo). E agora que o LP já teve direito a uma grande rotação por estas bandas, é meu dever anunciar com toda a franqueza que, apesar de não ser uma obra-prima, Fade é um belíssimo trabalho que não desilude em nada os admiradores dos Yo La Tengo.

Mantendo os arranjos orquestrais introduzidos nos capítulos mais recentes da sua carreira (e que aqui conferem à estética geral do disco um aspecto ainda mais rico e lustroso, fruto da produção de John McEntire), Fade traz-nos, ainda assim, um corte profundo com o caminho trilhado em em I Am Not Afraid of You And I Will Beat Your Ass (2006) e Popular Songs (2009), indo buscar a sua “inspiração” às texturas exploradas em I Can Hear the Heart Beating as One (1997) e And Then Nothing Turned Itself Inside Out (2000). Isso traduz-se numa obra que, à semelhança dos álbuns referidos, tenta conjugar de forma pacífica a melodia doce e os momentos acústicos contemplativos com uma distorção que, embora contida, mantém um certo carácter destrutivo.

Porém, Fade não se limita a ser uma mera obra auto-referencial e umbiguista; no seu 13º trabalho, o grupo sediado em Hoboken, Nova Jérsia não se inibe de nos reservar algumas surpresas, a começar pela inclusão de drones mais pronunciados em certas faixas, que conferem ao disco um carácter mais psicadélico (veja-se Ohm, o primeiro single do álbum). Ao aliarmos isso com a utilização de estruturas mais convencionais e Pop, algo pouco usual no percurso do trio, conseguimos perceber que em Fade os Yo La Tengo não perderam a sua verve experimental e continuam a querer mostrar novas formas de fazer a sua sonoridade bem pessoal.

Ao nível das letras, o trio norte-americano traz para este Fade temas muito intimistas, explorando questões relacionadas com o envelhecimento e o amor, que assentam de forma perfeita na sonoridade do LP. Contudo, nem tudo é perfeito neste longa duração; o defeito mais premente é, na minha opinião, uma notória carência de peças mais incisivas e “roqueiras” que quebrem o andamento lento e downbeat que prevalece no disco. Esse facto, conjugado com uma certa inconsistência que se vai sentido, sobretudo a meio do álbum, faz com que Fade não seja uma obra perfeita e fique alguns furos atrás dos seus antecessores.

Quanto às faixas individuais que mais se destacaram neste álbum, devo referir pela positiva a hipnótica Ohm, a açucarada Is That Enough, a delicada Well You Better, a frenética Paddle Forward e a amorosa The Point of It. Por outro lado, as desinspiradas Stupid Things, I’ll Be Around, Cornelia and Jane e a aborrecida Two Trains surgem, na minha opinião, como os pontos mais baixos deste Fade.

Em suma, com o seu 13º disco os Yo La Tengo continuam a dar provas duma vitalidade tremenda e dum espírito de aventura notável. Entre o desempoeirar de panoramas sonoros antigos e o desbravamento de novos territórios musicais, Fade é um álbum feito à medida dos grandes fãs do trio norte-americano e que, apesar das suas falhas, contém em si momentos belos e verdadeiramente admiráveis. É certo que está longe de ser uma obra-prima e não se aguenta na comparação com os tempos áureos do grupo; porém, a verdade é que Fade consegue, duma forma despreocupada, fortalecer ainda mais a minha fé inabalável nos Yo La Tengo. E se todas as instituições do Indie fossem assim tão fiáveis o mundo seria, certamente, um lugar mais feliz.

Nota Final: 7.2/10

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945