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Cinema de Resistência

Nos últimos cinco anos, mais de um milhar de clubes de vídeo fechou em Portugal, mas o amor pelo cinema mostra que ainda há resistentes.

É em pleno final do século XIX, a 28 de dezembro de 1895, que Auguste Lumière e Louis Lumière fazem uso do seu cinematógrafo pela primeira vez e realizam uma exibição pública de dez curtíssimos filmes, no Grand Café parisiense, em França. Foi então que os irmãos Lumière, os “pais do cinema”, deram a conhecer ao mundo a magia da 7ª Arte. O cinema mudo fez sucesso, mas não impediu a evolução. Se, em 1927, a aliança do som à imagem se considerou um grande passo, então a introdução da cor ainda mais marcante se mostrou, pois estreava The Jazz Singer, a primeira experiência a cores a ser exibida, segundo reza a lenda. Uma década depois, no ano 1937, Walt Disney dá-nos a conhecer Branca de Neve e os Sete Anões, a primeira longa-metragem animada, que, contrariamente ao que a crítica esperava, se mostrou um sucesso estrondoso de uma qualidade imensa. Foi a partir desta altura que o cinema se expandiu brutalmente, influenciado pela poderosa indústria de Hollywood.

Durante inúmeras décadas, o cinema não esteve ao dispor de todos e querer rever determinado filme era tarefa difícil, a solução seria esperar que o centro de espetáculos local o exibisse novamente. Tudo muda no ano de 1976, com o inovador Video Home System, vulgarmente conhecido por VHS. A miraculosa invenção surge no mercado durante década de 80 e assiste-se a uma abrupta difusão do formato. A sua capacidade de armazenar filmes numa simples fita, sendo possível ver e revê-los quantas vezes desejarmos, conduziu a um inovador conceito: o clube de vídeo. Assim, com um simples leitor de VHS e uma televisão, qualquer um poderia requisitar o seu filme favorito. Os clubes de vídeo alastram-se a uma velocidade impressionante e tornam-se um negócio de sucesso.

Amílcar Fernandes inaugurou o seu clube de vídeo há mais de duas décadas, no Centro Comercial Avenida, em Coimbra. “Abri o Clube de Vídeo Avenida em 1989 porque gosto de cinema e, na altura, era um negócio rentável, ligado a algo de que gosto.” Apesar da situação crítica que as lojas deste tipo atravessam, “não muito agradável”, o lojista confessa que diariamente guarda boas recordações, pois gosta de “conhecer gente nova, de falar sobre cinema e de estar constantemente olhos nos olhos”.

Sabe-se que, só em Coimbra, durante os anos 90, existiam mais de 20 clubes de vídeo, enquanto que, hoje, contam-se pelos dedos de uma só mão os que permanecem abertos. A Federação Portuguesa de Editores de Videogramas avançou, recentemente, com dados drásticos: nos últimos cinco anos, registou-se um decréscimo de 83% no número de clubes de vídeo em funcionamento; dos 1800 existentes, estima-se que restem apenas cerca de 300. Quando confrontado com esta questão, Amílcar Fernandes confessa que “se o IVA subir em breve, vejo-me obrigado a fechar a loja.” Contrariamente à ideia generalizada de que a Internet e os downloads ilegais são os responsáveis pela situação, acredita que esta evolução negativa se deve, sobretudo, aos preços a que o cinema é comercializado em Portugal, uma vez que “pirataria sempre houve e, curiosamente, é à base de blockbusters, pois o cinema europeu não é pirateado”, mas faz notar que esta prática “é falta de civismo das pessoas, põe fim a muitos empregos” e que “a solução parte do Governo, é algo que mexe com muitos interesses.” Grande parte da culpa deve-se igualmente às editoras, “antes víamos três ou quatro vendedores de filmes que se deslocavam até nós, agora os «vendedores-tremoço» que andam pelas ruas não sabem sequer o que vendem e já não se dignam a visitar os clubes”, acrescenta que “dá a sensação de que são as editoras que nos fazem o favor”. Não bastando a situação que o comerciante refere, o preço de compra de um filme para aluguer, por parte das editores, é sempre superior ao valor de venda direta, “Indomável custou-me 36,90€, quando nas lojas é vendido a 19,99€, não falando de filmes que chegam a custar 40€ e que, para serem pagos, têm de ser muito rodados.”

O dono do clube declara que tem apoiado “muitos ciclos de cinema em casa de estudantes, sem qualquer custo”, pois nota que os jovens mostram um grande desinteresse pela arte, uma vez que o valor a que é comercializada não permite o acesso a todos. Surpreendentemente, a pornografia explícita é o género que mais vende e afirma, com toda a naturalidade, que é algo que não o incomoda, “antigamente era um bicho-de-sete-cabeças e hoje tenho senhoras a alugar filmes para adultos, os tempos são outros e continua-se a vender e a alugar muitos filmes destes.”

Cristina Diogo é sócia desde que o Clube de Vídeo Avenida abriu, em 1989, e apesar de ter deixado de o frequentar há já vários anos nunca esqueceu o seu número de sócio. “Costumava alugar filmes com uma certa assiduidade porque a oportunidade de podermos ver e rever filmes no conforto do nosso lar me agradava imenso”, afirma. “Atualmente, os tempos são outros, o stress e a agitação do dia-a-dia deixa-me sem tempo livre para poder apreciar a arte do cinema do modo que gostava e é algo que, de certa forma, me entristece, pois guardo boas recordações do clube de vídeo que tantas vezes visitei e onde podia partilhar opiniões sobre o que via.”

O Clube de Vídeo Avenida é um estabelecimento que vive, quase exclusivamente, de clientes habituais de longa data – alguns são sócios há já 21 anos – e, apesar de todas as adversidades, o «Sr. Amílcar» pretende permanecer em atividade. “É algo que gosto e as pessoas que me visitam são pessoas que gostam de cinema, gosto que a malta jovem que vem para Coimbra veja bons filmes e é à minha loja que se dirigem porque sabem onde encontrar cinema a sério.”

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