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Michael Fassbender e Keira Knightley em Um Método Perigoso

O Perigoso Método de Freud

No terceiro dia do Lisbon & Estoril Film Festival, o filme de David CronenbergA Dangerous Method, exigiu uma sessão extra, para além das duas agendadas que esgotaram. O filme é uma das antestreias mais aguardadas no festival e teve a presença do realizador.

Dr. Carl Jung (Michael Fassbender), o principal seguidor do processo de psicanálise freudiano, foi incumbido de tratar uma paciente judia de origem russa, Sabina Spielrein (Keira Knightley)

A doente sofria de histerias e espasmos, impulsionados por traumas de infância em torno da autoridade patriarcal. Possuía obsessões masoquistas, que lhe proporcionavam excitação, ao ponto de se masturbar com a ameaça de flagelo. É graças ao método que a sua vida muda para sempre. A prestação fabulosa de Keira Knightley deixou o público perplexo, capaz de acreditar na sua história traumática, difícil de ultrapassar.

Carl travou também conhecimento com outro paciente Dr. Otto Gross (Vincent Cassel). Otto, um viciado em sexo, que precisava urgentemente de ser analisado por um especialista. O actor francês Vincent Cassel, apesar do seu papel secundário, interpreta de forma exemplar a personagem neurótica, que será uma figura preponderante para as decisões de Jung.

O aspecto mais interessante do filme centra-se na relação entre Jung e Freud, o famoso nome do campo da psicanálise, que é familiar a todos aqueles que o ouvem. No filme, o caso conturbado de Spielrein uniu Dr. Jung e Professor Freud numa discussão sobre os propósitos do método psicanalítico. Freud via em Jung, o seu potencial sucessor, como um filho que iria seguir os seus passos na corrente da psicanálise.

Porém Jung, recusava caminhar na mesma direcção que o seu mestre, refutando certas ideias defendidas pelo movimento. Apesar de ter aprendido tudo o que sabe com Freud, o jovem doutor não compreendia a sua obsessão em explicar todas as neuroses dos seus pacientes com base na sexualidade.

A perícia de Cronenberg é notável na realização deste filme. Dois núcleos hipnotizantes, a discussão científica entre Freud e Jung e o romance proibido entre o médico e uma paciente, prendem a atenção do público durante 99 minutos.

As histórias entrelaçam-se de forma perfeita, dando um ritmo electrizante à narrativa. A moralidade e a autoridade, os dois pilares da sociedade, são colocados em causa incessantemente, chegando a ser difícil definir o que é certo ou errado. Será que nos devemos reprimir para exaltar a fidelidade e o auto-controlo, ou ceder aos instintos básicos, que também fazem parte da nossa constituição como seres humanos?

O tema da sexualidade no método de Freud atravessa todo o filme, impondo a dualidade entre o instinto e a razão, num filme de cortar a respiração.

Só não atinge a perfeição, por um pequeno aspecto crucial: o seu final. Os derradeiros momentos não fazem justiça, a todo o suspense construido durante o filme. O destino das personagens fica em aberto e só sabemos o seu futuro através das notas finais que aparecem a fundo negro.

9/10

Ficha técnica:

Título Original: A Dangerous Method

Realizador: David Cronenberg

Argumento: Christopher Hampton

Actores: Michael Fassbender, Keira Knightley, Viggo Mortensen, Vincent Cassel e Sarah Gadon

Baseado no livro de John Kerr, A Most Dangerous Method

Peça de Christopher Hampton, The Talking Cure

  1. Na realidade quando escrevi a critica falei por mim própria, não estive a rever outras criticas para produzir efeito dominó. Eu vejo o filme e falo dele tal como fizeste Katia. Não tenho pretensões de fazer da minha opinião um guia para as pessoas seguirem. Apenas pensamentos 🙂

  2. Não gosto de ler críticas porque, regra geral, são fruto de mero efeito dominó: um crítico consagrado defende um filme e a boiada segue, e vice-versa.

    A despeito da impressionante interpretação de Keira Knightley e da notoriedade de Cronemberg, esse filme não me convenceu.

    Mas a grande mensagem que retive e que, a meu ver, resume bem a posição de Freud é a de que um pouco de neurose seria “normal”, o que Jung, ainda segundo o pai da psicanálise, resiste em admitir.

    A mensagem por trás disso contraria o senso comum de que não podemos reprimir sentimentos sob o risco de ficarmos “neuróticos”. Freud recomenda a repressão do impulso sexual que levava Jung a ter um caso extra-conjugal com sua própria paciente.

    A história, involuntariamente, mostra a superioridade de Freud sobre Jung, que, dado a devaneios, ao menos segundo o filme, nutriu fantasias em relação à sua primeira amante até o fim da vida, como é próprio da imaturidade.

    Mas incorre em clichês rasos como enaltecer a figura de Jung e sua visão de mundo pela ênfase sobre um dado absolutamente desnecessário, uma vez que fruto do acaso, de que este teve uma morte tranquila em oposição a Freud, que morreu de câncer, reforçando o mito alimentado em nossa sociedade contemporânea de que reprimir sentimentos “faz mal” e bobagens do tipo.

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